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A ginofobia de Marcos Rotta, vice-prefeito de Manaus

Marcos Rotta: necessidade clara de se resolver com o sexo oposto (Reprodução/Facebook)

Por Paula Litaiff |

Historiadores e psicanalistas dizem que o termo “ginofobia” surgiu para definir o medo que os homens experimentam de terem sido humilhados pelas mulheres, nomeadamente pela emasculação, que é privar um homem de sua masculinidade. Em uma explicação mais direcionada, a emasculação dentro do conceito da ginofobia significa que o homem se sente fraco ou não “viril” o suficiente, diante de uma ou várias mulheres.

Após não ter seu anseio atendido pelo prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto (PSDB), de ser candidato ao governo do Amazonas em 2018, o vice-prefeito da cidade, Marcos Rotta (atual, DEM) passou a criticar deliberadamente a capacidade administrativa da primeira-dama de Manaus, Elisabeth Valeiko, presidente do Fundo Manaus Solidária, uma instituição com status de secretaria. Ela é formada em Arquitetura e fez especialização em Gestão de Obras e Projetos.

Entre colegas políticos e assessores, Rotta também questionava a capacidade de articulação política da então novata no grupo, à época em 2018, a ex-deputada Conceição Sampaio, secretária municipal de Ação Social (Semasc), e recém-filiada ao partido do prefeito, o PSDB, do qual Rotta saiu magoado há dois anos.

Mas a desconfiança de Rotta com a capacidade feminina de gestão e articulação não é de agora. Em sua passagem pela Câmara Federal (2014-2016), ele dizia que o ex-vice-presidente Michel Temer (MDB) era mais “habilidoso” que a presidente Dilma Rousseff (PT).

Duvidoso e controverso

Apesar de fazer parte de uma gestão da qual escolheu integrar há quatro anos, Marcos Rotta condena os atos da Prefeitura de Manaus, cujo chefe do Executivo, ele diz não ter mais capacidade de administrar, atribuindo a responsabilidade a Elisabeth Valeiko.

As declarações do vice-prefeito vêm, muitas vezes, em forma de ironia, malícia e preconceito, como a entrevista que ele concedeu ao jornalista Marcos Pontes, no programa Ponto & Vírgula em março deste ano. “Embora ela (Elisabeth Valeiko) tenha boa vontade, ela não é do ramo, não foi talhada a isso”, falou em tom de deboche.

Neste mês de julho, ele disse ao blog da jornalista Rosiene Carvalho que no período que estava inserido na administração da Prefeitura de Manaus, sentia-se um “secretário pessoal de Arthur Virgílio” e insinuou que quem tinha voz na administração era a primeira-dama de Manaus. Fotos, vídeos e  posts em redes sociais remetem ao contrário.

Mesmo tendo deixado a gestão de Arthur em 2018 para compor o governo de Amazonino Mendes (Podemos) – que foi candidato à reeleição, mas saiu derrotado – , Marcos Rotta, após retornar ao cargo de vice-prefeito, foi chamado a fazer parte das principais reuniões, inclusive, aquelas que tratavam de articulações internacionais, de acordo com a matéria no site da Prefeitura de Manaus.

Marcos Rotta bem ao lado de Arthur Neto nas decisões sobre investimentos internacionais (Semcom)

Exemplo foi o que ocorreu em 17 de janeiro de 2019, quando houve um encontro com representantes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD). Nesse dia, Rotta estava sentado bem ao lado de Arthur e contribuiu na execução dos projetos .

Um ano antes, em janeiro de 2018, o vice-prefeito, também, mostrava indícios de grande prestígio nas reuniões e inaugurações da Prefeitura de Manaus. Uma referência é o lançamento de um dos principais projetos de Arthur Virgílio, o Zona Azul, apresentado na época. Ele foi um dos principais oradores do evento.

Marcos Rotta era constantemente chamado a discursar em eventos da Prefeitura de Manaus (Semcom)

O que diz a Loman

A Lei Orgânica do Município (Loman) restringe o poder do vice-prefeito de Manaus, limitando-o às decisões do chefe do Executivo Municipal. No parágrafo único do artigo 71 diz que o “vice-prefeito auxiliará o prefeito sempre que for convocado para missões especiais, além de outras atribuições que lhe forem conferidas em lei complementar”. Por outro lado, no mesmo artigo, a Loman prevê que o prefeito exerce a função, essencialmente, com o auxílio dos secretários municipais. Trecho abaixo:

Outra mulher no grupo

A presença de outra mulher com poder de atuação no “ninho tucano” desanimou o vice-prefeito de Manaus. Em abril de 2018, a ex-deputada federal Conceição Sampaio filiou-se ao PSDB, tornando-se mais próxima de Arthur e Valeiko. Aliados disseram que o tom equilibrado e a comunicação transparente de Sampaio a fizeram conquistar a confiança do casal.

Conceição Sampaio durante discurso de filiação ao PSDB em 2018, partido no qual estava Marcos Rotta na época (Assessoria de Imprensa)

Diferentemente, Rotta se afastava mais ainda do grupo que ajudou a eleger ao conjecturar que estava perdendo espaço político e de gestão, mesmo estando à frente da Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf).

Depois de Arthur decidir pelo filho, Arthur Bisneto (PSDB), e não por seu vice-prefeito, para dar a segunda vaga na chapa de candidatura ao governo do Amazonas há dois anos, Rotta se uniu ao principal adversário de Arthur, o ex-governador Amazonino Mendes.   

‘Dilma não era habilidosa’

Deputado federal pelo MDB em 2016, ano do impeachment da ex-presidente Dilma, Marcos Rotta foi o primeiro na bancada do Amazonas a defender a deposição da petista, alegando que o governo federal, à época, só discutia políticas internas com “caciques”.

A afirmação, ao Portal Amazonas Atual, veio em uma clara referência a sua exclusão das articulações com o Palácio do Planalto. Rotta, também, argumentava que o então vice-presidente Michel Temer tinha mais “habilidade” na gestão pública que Dilma Rousseff.  

À TV Band, ele afirmou que tinha se cercado de todas as informações e que estava convencido da necessidade da saída de Dilma e, consequentemente, substituição por Temer. Hoje, o impeachment da ex-presidente é visto por analistas internacionais como golpe de Estado.

Três anos após à votação do impeachment, Michel Temer foi preso pela Polícia Federal (PF), acusado de comandar uma organização criminosa que praticou crimes envolvendo empresas estatais com desvios que chegaram a R$ 1,8 bilhão, conforme matéria do Jornal O Globo.



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A AUTORA

Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff tem especialização em Gestão de Políticas Sociais. Há 15 anos na profissão, atua no Jornalismo de Dados e em Reportagens Investigativas. Produziu matérias para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings – Bandidos na TV da Netflix.

Paula Litaiff é Diretora de Redação em

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