EDITORIAL – O crime organizado e a narrativa equivocada sobre a periferia

Operação “Erga Omnes”, conduzida pela Polícia Civil do Amazonas (PC-AM), e em outros seis Estados, revela o retrato desse cenário antes encoberto pela visão elitista (Imagem gerada com Inteligência Artificial/ImageFX)
Por Paula Litaiff
A imagem do polvo usada por pesquisadores para explicar o funcionamento do crime organizado no Brasil pode ser considerada a mais realista para entender o que está acontecendo hoje no País e, em particular, na Amazônia. O corpo central permanece protegido, enquanto seus tentáculos se espalham pela política, pela economia e pelas instituições públicas.
No passado, o debate público brasileiro preferiu olhar para a violência apenas pela lente da periferia. O crime sempre esteve restrito às favelas, aos jovens pobres, às ruas dominadas pelo tráfico. Essa explicação simplificada alimentou políticas de segurança baseadas quase exclusivamente em repressão policial e encarceramento em massa. Mas as investigações recentes evidenciam que essa visão é limitada, como aponta a nova edição da REVISTA CENARIUM.
A Operação “Erga Omnes”, conduzida pela Polícia Civil do Amazonas (PC-AM), e em outros seis Estados, revela o retrato desse cenário antes encoberto pela visão elitista. A investigação identificou uma rede
que mistura tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, empresas de fachada e agentes públicos, com movimentações de mais de R$ 70 milhões em quatro anos.
Não se trata de um caso isolado. A jornalista investigativa Cecília Oliveira (Intercept/Fogo Cruzado) insiste em um ponto central para compreender esse fenômeno: a violência armada é apenas a superfície visível de um sistema muito mais complexo. Por trás dos confrontos e dos homicídios existe uma economia do crime profundamente conectada a estruturas formais de poder e financiamento, principalmente, no Sudeste e Sul.
Na Amazônia, a crise é mais ampla. A combinação de fronteiras extensas, fiscalização precária e mercados ilegais lucrativos, como o garimpo, a madeira e o ouro, cria condições ideais para a expansão dessas redes. O crime organizado não apenas explora essas economias ilícitas, mas também se associa a elites locais capazes de transformar atividades ilegais em negócios aparentemente legítimos.
A realidade é que o crime organizado prospera quando encontra instituições frágeis, controles precários e disputas ideológicas que enfraquecem o Estado. Combater esse sistema significa justamente o contrário: fortalecer as instituições. No fim das contas, o verdadeiro núcleo do crime não está nos territórios invisíveis das periferias. Ele está onde sempre esteve: nas estruturas de poder que permitem que o polvo continue se alimentando…
O assunto foi tema de capa e especial jornalístico da nova edição digital/impressa da REVISTA CENARIUM. Acesse aqui para ler o conteúdo completo.
