CARTA A MEU PAI

 CARTA A MEU PAI

Evandro Newton das Neves Gonçalves, durante leitura da REVISTA CENARIUM em 2021 (Arquivo Pessoal)

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Pensei que as últimas semanas de desafios estavam me preparando para este momento, mas me enganei, Pai. Chegar hoje à casa que o senhor construiu com tanta luta e não vê-lo à mesa, tomando seu café, foi muito doloroso. E ainda será por muito tempo.

Em meio à dor, sinto-me privilegiada por termos criado, juntos, memórias em viagens e encontros que tivemos – momentos bem diferentes daqueles da minha infância e adolescência, quando o senhor tinha, sozinho, a missão de sustentar uma família com seis filhos. Foram tempos difíceis, que hoje compreendo bem.

O senhor viveu e nos proporcionou uma vida digna, Pai, da qual sempre nos orgulharemos. Diante das dificuldades, era impressionante observar a sua resiliência diária. Acordava cedo, sintonizava o rádio nas notícias, tomava o seu café, se despedia e ia trabalhar.

Quando retornava, muitas vezes com o semblante marcado pela preocupação, buscava refúgio na música. Seus discos de vinil eram seu orgulho, e seu gosto, eclético. De tanto ouvir, lembro-me de alguns: Beth Carvalho, Benito Di Paula, Genival Lacerda, Gonzagão, Moacir Franco, Nelson Gonçalves, Pinduca, Roberto Carlos, Teixeira de Manaus e tantos outros que marcaram épocas.

Hoje, ao escutá-los novamente no carro, recordei-me mais uma vez da nossa conversa em 2002, quando lhe disse que eu não estava feliz na minha profissão anterior nem na faculdade que cursava. O senhor olhou para mim e perguntou: “Por que tu não viras jornalista?”. No fundo, o senhor sabia que era um sonho de infância que eu havia arquivado por receio do mercado de trabalho. E, na sua simplicidade, insistiu: “Eu acho bonito mulher jornalista”.

Sr. Evandro Newton das Neves Gonçalves, o senhor foi um homem que não teve acesso à universidade e que, apesar da educação de sua época, jamais orientou nenhuma das filhas a buscar, na relação conjugal, o sustento financeiro. Sempre nos dizia: “Estudem, trabalhem”.

O senhor fez sua passagem no dia 10 de março, às 19h30, em Manaus (AM), e me deixou uma herança preciosa que a traça não destrói e o tempo não apaga: a honra, a dignidade e a esperança.

Obrigada por tudo, Pai!

Carinhosamente, Sua filha, Paula.

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