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Sozinhos, indígenas buscam apoio internacional, sem intervenção do governo federal, na COP26

Indígenas ganham destaque na COP26 (Arte: Catarine Hak/Cenarium)

Victória Sales – Da Revista Cenarium

MANAUS – Depois de serem ignorados por décadas em debates internacionais, povos indígenas se uniram em prol da proteção das florestas e dos direitos dos povos originários em espaços de discussões, e são visados mundialmente. Na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP26), que teve início no último dia 1º, líderes indígenas conquistaram espaços e ganharam voz em lugares que antes pertenciam apenas a representantes federais.

Para a indígena do povo Apurinã, da região do Purus, no Amazonas, Rose Meire, as lideranças indígenas no contexto da COP26 têm o papel de levarem as reivindicações dos povos indígenas brasileiros aos líderes mundiais. “E fazem isso com conhecimento de causa, de quem vivencia, diariamente, os impactos das mudanças climáticas e demais crimes ambientais, e lutam para combater isso”, enfatiza ela.

Em um trecho de uma mensagem destinada aos líderes mundiais que estavam na COP26, a Articulação dos Povo Indígenas do Brasil (Apib) destaca a contribuição desses povos na preservação do meio ambiente e a importância da demarcação de terras indígenas. “Nos colocamos contra falsas soluções baseadas em inovações tecnológicas elaboradas a partir da mesma lógica desenvolvimentista e produtivista que provoca as mudanças climáticas”, diz um trecho do documento da Apib.

“Criticamos soluções que não reconheçam os povos indígenas e comunidades locais como o ponto central na defesa das florestas, da diminuição do desmatamento e das queimadas, e como essenciais para garantir a meta declarada de manter o aquecimento global abaixo de 1,5 graus Celsius”, destaca outro trecho.

Comprometimento
Responsáveis por mais de 80% da biodiversidade do planeta, os povos indígenas receberam uma pequena parcela do financiamento de doadores internacionais, nos últimos dez anos, segundo estudo divulgado pela Rainforest Foundation Norway. O valor gira em torno de apenas 1% da Assistência Oficial ao Desenvolvimento (ODA) para adaptações às mudanças climáticas.

Com isso, um novo acordo histórico foi alcançado na segunda-feira, 1º, na COP26, que coloca os povos indígenas no centro das discussões, novamente, e ressalta o papel de guardiões da floresta. Reino Unido, Noruega, Alemanha, Estados Unidos, Países Baixos e mais 17 doadores privados se comprometeram a apoiar os povos originários com 1,7 bilhão de dólares, de 2021 a 2025, tornando-se os principais aliados na luta contra a mudança climática.

Rose Meire pontua, ainda, que a captação de recursos destinados aos povos indígenas influencia diretamente e, positivamente, instrumentos como o Fundo Indígena da Amazônia Brasileira (Podáali), criado com o objetivo de servir aos povos originários como captador de financiamento direto aos territórios e comunidades indígenas.

“Nesse contexto do evento internacional, o Podáali, como instrumento técnico, se apresenta enquanto alternativa própria dos povos indígenas para que os apoios possam chegar com maior efetividade aos territórios”, explica Meire.

Delegação indígena
De acordo com a Apib, mais de 40 representantes dos povos indígenas desembarcaram em Glasgow, na Escócia, para participar da COP26. Uma das pautas principais em debate é a denúncia do genocídio indígena e o agravamento das situações econômicas e sociais causadas pela pandemia da Covid-19.

O grupo levou ainda a “Carta de Tarumã”, uma declaração dos povos da Amazônia diante das mudanças climáticas. Os caciques relatam que a crise está ligada à exploração dos povos e das terras indígenas. Segundo eles, a Covid-19 alertou para as mudanças do clima e para a urgência de repensar “seriamente, na necessidade de respeitar a sociobiodiversidade presente em nossos territórios”.



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A AUTORA

Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff tem especialização em Gestão de Políticas Sociais e, atualmente, é diretora executiva da Agência e Revista Cenarium. Há 16 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Produziu matérias para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.

Paula Litaiff é Diretora de Redação em

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O Site da Paula Litaiff tem como principal finalidade a emissão de opinião sobre diversos temas sociais, políticos e econômicos, levando o leitor à reflexão sobre a importância de se tornar um agente transformador da sociedade.


Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio extremamente perigoso…

(in Um Sopro de Vida | CLARICE LISPECTOR)