EDITORIAL – A direita e o bolsonarismo em fragmentos na Amazônia

Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República, apresenta dificuldade para unificar o bolsonarismo na Amazônia (Felipe Soares/Revista Cenarium)
Por Paula Litaiff
A fotografia política da Amazônia Legal para as eleições de 2026 aponta para um dado incontestável: a predominância das pré-candidaturas de direita e de centro na disputa pelos governos estaduais. Como mostra o levantamento desta edição da REVISTA CENARIUM, 82,22% dos pré-candidatos pertencem a esse campo político que, a depender do período, tiram proveito do bolsonarismo e, atualmente, estão desarticulados.
Juntou-se ao cenário de desunião do grupo bolsonarista na Amazônia, o vazamento de áudios e mensagens pelo portal The Intercept, em maio deste ano, revelando negociações entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Nos registros, Flávio cobrava o repasse de cerca de R$ 134 milhões para o patrocínio do filme Dark Horse, focado na campanha de Jair Bolsonaro.
O fato é que a direita está fragmentada na Amazônia brasileira e isso não é uma narrativa, mas uma constatação baseada nos registros de pré-candidaturas e nas pesquisas de intenção de voto. Esses elementos validam as decisões dos dirigentes dos diretórios estaduais e daqueles que se colocam à disposição para disputar o comando dos Executivos estaduais.
Dados políticos históricos mostram como as forças da direita e do “centrão” se aproximaram do bolsonarismo nos últimos dez anos. Elas não nasceram com ele, tampouco dependem exclusivamente dele para existir. A obra Geografias do Bolsonarismo (2023), de Bruno Malheiro, ajuda a compreender esse fenômeno. O autor explica que as ideias e os interesses desse campo político encontraram terreno fértil em determinados territórios ao articularem interesses econômicos, valores conservadores e novas formas de comunicação política.
Isso não significa que toda a direita amazônica seja bolsonarista. A história política da região sempre foi marcada pela presença de grupos conservadores muito anteriores à ascensão de Jair Bolsonaro, vinculados às elites econômicas locais, às disputas fundiárias, aos ciclos de desenvolvimento regional e às estruturas tradicionais de poder.
Embora o levantamento desta edição da REVISTA CENARIUM apresente um raio-X da predominância ideológica entre os pré-candidatos aos governos estaduais da Amazônia, o grande debate de 2026 não está em medir o tamanho das forças políticas, mas em compreender quais projetos elas representam e a quais interesses estão, de fato, a serviço.
Como lembra Aristóteles, a política deve ser orientada pelo bem comum. A questão central para a Amazônia e para o Brasil continua sendo a mesma: quais propostas são capazes de enfrentar os desafios do desenvolvimento regional e da redução das desigualdades?
A resposta não será encontrada nos rótulos ideológicos. Ela estará na capacidade da sociedade de exercer uma análise crítica e na responsabilidade do Estado de criar as condições para que essa reflexão ocorra de forma livre, informada e democrática.
O assunto foi tema de capa e especial jornalístico da nova edição digital/impressa da REVISTA CENARIUM. Para ler o conteúdo completo, acesse aqui.