Paula Litaiff

Protestos antidemocráticos recebem ajuda de ao menos cinco empresas em Manaus

Empresário grava vídeos durante doações para atos antidemocráticos (Ricardo Oliveira/Revista Cenarium)
Ívina Garcia – Da Revista Cenarium

MANAUS – Os protestos antidemocráticos contra a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já duram 16 dias em Manaus, capital do Amazonas. Iniciado no dia 2 de novembro, em frente ao Comando Militar da Amazônia (CMA), zona Oeste, o movimento recebe doações e incentivos de ao menos cinco empresas.

Em recente determinação do ministro Alexandre de Moraes, 43 empresas e pessoas físicas suspeitas de financiar atos antidemocráticos tiveram suas contas bancárias bloqueadas. Na decisão, o magistrado lembra que o direito a greve e manifestação são legítimos, contanto que não machuquem o bem-estar social e o estado democrático de direito.

No Amazonas, a juíza federal Jaiza Fraxe decretou, na noite do dia 16, que os financiadores e incentivadores das manifestações em frente ao CMA fossem identificados. A magistrada destacou na conclusão que o ato “continua na ilegalidade, […] pela promoção de atos similares à anarquia – quando país é uma República Federativa e todos devemos obediência às leis e à Constituição“.

Fraxe nomeou um perito para colaborar na identificação da “fonte de custeio da alimentação, quem fornece, se existe autorização da vigilância sanitária, se há venda, comércio e notas fiscais e se efetivamente existem policiais fazendo uso de refeições no local“.

REVISTA CENARIUM flagrou na tarde de quinta-feira, 17, a entrega de uma das doações ao ato extremista em frente ao CMA. Um carro modelo Chevrolet S10 abastece os manifestantes com água e refrigerante. A reportagem investigou os dados da placa do veículo e conseguiu identificar que o dono é um empresário do ramo de varejo.

Empresário grava vídeos durante doações para atos antidemocráticos (Ricardo Oliveira/Revista Cenarium)

O homem que aparece de camisa vermelha nas imagens flagradas pela CENARIUM foi identificado como Ednei Rocha da Silva, o empresário é dono das lojas Elshaday Variedades e da Planet Pet Shop, ambas localizadas no bairro Armando Mendes, zona Leste de Manaus.

Empresas registradas em nome de Ednei Rocha da Silva (Reprodução)

reportagem também teve acesso a um vídeo que mostra outra doação de fardos de água, desta vez da empresa Tuboaços da Amazônia. Nas imagens, o narrador, membro do ato antidemocrático, declara ser “mais uma doação da Tuboaços“. O manifestante pede para divulgarem o vídeo. “Compartilha aí, que a Tuboaços é nossa amiga“.

Vídeo divulgado entre grupos bolsonaristas mostra doação de fardos de água (Reprodução)

Durante a apuração, a reportagem identificou três nomes no quadro societário da empresa Tuboaços da Amazônia: Fabiano Moreira Magalhães, Maria de Fátima Moreira e Sergiani Costa de Alcântara. A empresa é responsável por fabricar expositores, material de ponto de venda, artigos promocionais e sinalizadores.

CENARIUM localizou um processo no nome de Fabiano Moreira Magalhães, movido pela Agência Nacional de Minério. De acordo com a ação, Fabiano foi multado por não pagamento ou pagamento fora do prazo legal da Taxa Anual por Hectare (TAH), que com os juros chega a R$ 5 mil.

Uma das primeiras empresas a realizar doação de alimentos e bebidas para os protestos antidemocráticos em Manaus, no dia 11 de novembro, foi o supermercado Baratão da Carne, do empresário Edilson Rufino, que é citado em vídeos em que funcionários aparecem abastecendo um veículo de manifestantes com comidas e bebidas.

No vídeo, uma mulher não identificada fala sobre a doação recebida: “Estamos nesse momento, pegando, aqui, para levar para a manifestação [..], 12 caixas de frango, dez fardos de refrigerante, fardo de farinha, fardo de café, dez pacotes de calabresa […], praticamente, R$ 5 mil em doação”, diz a mulher.

Vídeo divulgado em redes sociais da doação do ‘Baratão da Carne’ para manifestantes bolsonaristas (Reprodução/Redes sociais)

Outros flagrantes de doações enviados à CENARIUM mostram o caminhão de uma empresa de serviços metalúrgicos descarregando fardos de bebidas no local. Pela placa, a reportagem identificou a empresa Jumar Indústria Comercio e Serviços Metalúrgicos, que tem como sócios os empresários Sardis Chaves Monteiro Junior e Ladilson Almeida Lima.

O caminhão está registrado no nome da empresa e na imagem é possível notar a presença de funcionários fardados descarregando as bebidas.

Funcionários de metalúrgica descarregam do caminhão da empresa bebidas para manifestantes (Reprodução)

O veículo registrado em nome da empresa Portal Vidros também foi flagrado descarregando mantimentos na manifestação antidemocrática no Comando Militar da Amazônia. Registrada nos nomes dos sócios Tulhio Moreira Israel e Luiz Israel da Silva, a caminhonete preta foi vista realizando doações por moradores que enviaram a foto à CENARIUM.

Foto enviada à Revista Cenarium mostra veículo de loja de vidros realizando doação na manifestação (Reprodução)

Ao que tudo indica, existem outras empresas envolvidas em doações e no financiamento das manifestações antidemocráticas em Manaus. Mensagens compartilhadas nos grupos de WhatsApp por pessoas que parecem estar na organização dos atos indicam a existência de outros doadores. Membros do grupo de conversa pedem para não serem mais compartilhados vídeos e fotos das empresas e materiais recebidos.

Prints de conversas em grupos bolsonaristas (Reprodução)

“Movimento Popular”

Os manifestantes de extrema-direita afirmam para a imprensa que os protestos realizados em frente ao CMA não possuem organização e são “movimentos populares”, liderados pelo povo. No local, há 16 dias estão alugados e disponíveis para o apoio dos protestantes 16 banheiros químicos, além de gerador de energia, tendas para almoço e barracas.

A reportagem entrou em contato com o líder do Movimento Conservador em ManausSérgio Kruke, responsável por organizar manifestações e atos pró-Bolsonaro, e ele negou organização dos atos em frente aos quartéis. “Não há liderança nesse movimento em frente aos quartéis, é uma manifestação orgânica da população“, disse.

O financiamento de atos antidemocráticos é crime e pode levar à prisão dos doadores identificados. Conforme o Artigo 286 do Código Penal, quem “incita, publicamente, animosidade entre as Forças Armadas, ou delas contra os poderes constitucionais, as instituições civis ou a sociedade” pode ser detido por três a seis meses, ou multado.

Manifestantes de extrema-direita pedem por intervenção federal (Reprodução)

O professor universitário, escritor e antropólogo, Paulo Queiroz, explica que movimentos sociais são ações que buscam revelar a indignação de um povo que tem em vista estar incluído no processo democrático de direito. Segundo ele, na antropologia, esses movimentos são chamados de “identitários”.

Identitários porque eles têm uma identidade social, como, por exemplo, as pautas de reivindicação de melhorias em bairros, os movimentos feministas, de ambientalistas, LGBTs, de ribeirinhos… Esses são movimentos sociais“, diz.

Os manifestantes que estão em frente aos quartéis pedem por intervenção federal por não concordarem com o resultado da eleição presidencial deste ano. Apesar de não gritar frases golpistas e trocarem o discurso de “intervenção militar“, especialistas afirmam que o discurso é maquiagem para pedir ditadura.

Paulo Queiroz afirma que o que ocorre em frente ao CMA não pode ser chamado de movimento organizado, isso porque a manifestação antidemocrática visa atacar o processo democrático de direito.

Eu não posso chamar isso de movimento organizado, porque ele não tem caráter reformista ou revolucionário. Ele [o protesto] tem caráter litigioso, de estabelecer a confusão e o caos, apenas para ver o resultado da sua força“, finaliza Paulo.

A AUTORA

Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff é diretora executiva da Revista Cenarium e Agência Amazônia, além de compor a bancada do programa de Rádio/TV “Boa Noite, Amazônia!”. Há 17 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Escreveu para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo com pautas sobre Amazônia. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.


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Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff é diretora executiva da Revista Cenarium e Agência Amazônia, além de compor a bancada do programa de Rádio/TV “Boa Noite, Amazônia!”. Há 17 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Escreveu para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo com pautas sobre Amazônia. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.

Paula Litaiff é Diretora de Redação em

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O Site da Paula Litaiff tem como principal finalidade a emissão de opinião sobre diversos temas sociais, políticos e econômicos, levando o leitor à reflexão sobre a importância de se tornar um agente transformador da sociedade.


Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio extremamente perigoso…

(in Um Sopro de Vida | CLARICE LISPECTOR)