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‘A diferença entre eu e os outros é que nunca precisei comprar voto’, diz deputado José Ricardo sobre adversários à prefeitura

Conhecido como "Homem da Kombi", o deputado federal José Ricardo gera polêmica com adversários (Arleson Sicsú/Revista Cenarium)

Por Paula Litaiff

Apesar de registrar votações expressivas nas eleições proporcionais associadas a um baixo custo nas campanhas, o deputado José Ricardo (PT), 56 anos, sempre enfrentou desafios no Diretório Regional do Partido dos Trabalhadores para firmar candidaturas a cargos majoritários. Petista há 15 anos, ele diz que o debate sobre prévias é importante no PT por não permitir que “caciques” tomem conta da legenda. Alçado a candidato a prefeito de Manaus por decisão da Executiva Nacional, o “Homem da Kombi”, como é conhecido, concedeu entrevista à REVISTA CENARIUM e explicou o que o torna diferente de seus adversários. Acompanhe:

REVISTA CENARIUM – Por que sempre foi tão difícil para o senhor convencer seus colegas de partido de que era o melhor nome para disputar cargos majoritários no Amazonas, mesmo com o respaldo de pesquisas eleitorais?

JOSÉ RICARDO – Não chamaria isso de dificuldade, mas de uma tradição que o Partido dos Trabalhadores tem de fazer prévias para definir suas candidaturas majoritárias. Isso nos diferencia de outros partidos que são sempre liderados por “caciques”. Essa forma de escolher o candidato que vai disputar um pleito majoritário permite que filiados participem e tenham peso nas decisões. Acho muito importante e sadio o debate sobre definição de candidaturas próprias e alinhamentos.

CENARIUM – Mas a sua candidatura à Prefeitura de Manaus foi colocada de cima para baixo, isto é, da Executiva Nacional para o Diretório Regional do Amazonas. Pela decisão local, o deputado estadual Sinésio Campos não seria o escolhido para concorrer ao pleito?

JR – Neste ano, ocorreu uma singularidade dentro do Diretório Estadual do Partido dos Trabalhadores (no Amazonas). Houve atropelos entre alguns grupos que impediram uma votação mais neutra. Havia interesses externos para que eu não me candidatasse a prefeito de Manaus. Além do mais, a Direção Nacional do PT já tinha definido que as candidaturas nas capitais e em cidades com mais de 100 mil eleitores, obrigatoriamente, deveriam ser decididas pela nacional, sendo avaliadas e confirmadas, de acordo com as estratégias do partido.

José Ricardo rebateu a fama de inflexível na política e disse que não aceita acordos escusos (Arleson Sicsú/Revista Cenarium)

CENARIUM – O senhor acredita que esse embate entre Diretório Estadual e Executiva Nacional do PT que terminou em setembro deste ano contribuiu para sua queda nas pesquisas eleitorais (considerando estudos feitos entre 2019 e 2020)?

JR – Não vejo dessa forma. Penso que as pesquisas não conseguiram alcançar muitas pessoas em Manaus. Ainda há os indecisos que somam mais de 60% do eleitorado, de acordo com os últimos levantamentos. Portanto, não tem nada certo para nenhum candidato.

CENARIUM – O que torna o nome de José Ricardo diferente de seus concorrentes na disputa à Prefeitura de Manaus?

JR – A diferença entre eu e os outros é que nunca precisei comprar voto para me eleger. Não tenho qualquer receio de afirmar isso. Mas temos, também, propostas concretas para o atual cenário nas áreas de Educação, Saúde, Infraestrutura, Mobilidade, entre outras. Também não tenho medo de enfrentar debates para discutir propostas com outros candidatos. Quero ganhar a eleição, mas no voto.

CENARIUM – O senhor pode identificar quais candidatos à Prefeitura de Manaus compraram votos para se eleger?

JR – Foram casos mostrados pela grande mídia, basta uma pesquisa na internet.

CENARIUM – Nas eleições de 2018, houve uma grande polarização dos votos entre a direita e esquerda no Brasil e no Amazonas. Apesar de uma grande rejeição ao PT no Amazonas, o senhor foi o deputado federal mais votado, usando o nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como ‘garoto-propaganda’. Neste ano, não vemos o mesmo empenho com o ex-presidente…  

JR – Estamos em um outro momento eleitoral no qual a ideologia partidária pesa menos que os problemas de uma cidade. Um momento em que um chefe do Executivo Municipal não tem o poder de influenciar uma Constituição Federal com alterações que retirem direitos humanos e trabalhistas. Portanto, penso que o período é de falar de propostas para a cidade. Mas o presidente Lula foi importante para Manaus e o Amazonas como foi para o Brasil. Foi um líder que defendeu a nossa Zona Franca, implantou o Proama (Programa Água para Manaus) na zona Leste da cidade, entre outros projetos que ficaram para a nossa história.

CENARIUM – O senhor não conseguiu ser um consenso para a esquerda em Manaus, que decidiu se dividir em outras candidaturas a prefeito. O que lhe faltou?

JR – Veja bem, toda candidatura é legítima. Os partidos estão livres para terem suas candidaturas próprias, independentemente, das chances de vitórias apresentadas pelas pesquisas eleitorais.

CENARIUM – O senhor é tido como inflexível e ortodoxo por líderes de outros partidos em Manaus, será por esse o motivo da resistência deles em fechar acordos em torno de sua candidatura?

JR – Se estar ao lado da população e combater acordos escusos é ser inflexível, eu prefiro estar do lado do povo. Eles falam isso porque eu presto contas do meu trabalho, porque eu nunca me alinhei às garras da velha política…

O deputado federal pelo PT disse acreditar em reviravoltas nos resultados das pesquisas eleitorais (Arleson Sicsú/Revista Cenarium)

CENARIUM – Como o senhor avalia as gestões do prefeito de Manaus, Arthur Neto (PSDB), e do govenador do Amazonas, Wilson Lima (PSC)?  

JR – Posso dizer apenas que falta transparência nessas administrações.

CENARIUM – Se o senhor for prefeito de Manaus, como espera que seja sua relação com o governador Wilson Lima?

JR – A mais institucional possível.

CENARIUM – Hoje, existe um grande impasse entre governo do Estado e a Prefeitura de Manaus sobre as ações de prevenção e tratamento da Covid-19. Quais são suas estratégias para conter a doença?

JR – Desde quando a pandemia chegou a Manaus, venho falando da importância de se fazer uma parceria institucional entre o Estado e o município, mas o que se vê são as esferas de governo atuando de forma isolada. Eu vou buscar apoio, inclusive, do governo federal para frear a doença, adotar medidas previstas pela Organização Mundial de Saúde (OMS), realizar parcerias com associações comunitárias e comerciais para evitar aglomerações no comércio, mas sem parar a economia, além de outras ações. Neste momento, a questão política é o que menos importa.

CENARIUM – Se fosse categorizar em pontos suas propostas à Prefeitura de Manaus, quais seriam as prioridades?

JR – Inovação, Desenvolvimento Econômico, Científico e Tecnológico; Desenvolvimento e Inclusão Social; Segurança Cidadã; Desenvolvimento Urbano e Mobilidade; Preservação Ambiental e Saneamento Básico; e Transparência, Participação Popular e Eficácia Administrativa. Em suma, temos as propostas, mas elas serão adequadas às peculiaridades da população, porque o que defendemos acima de tudo é uma gestão participativa.



1 comentário

  • Thais

    Desde que comecei a participar das eleições exercendo meu dever com orgulho ,como eleitora ,acredito no Zé Ricardo ,até em tempos de política lá está ele fazendo a própria política, por essas e outras atitudes acredito que a juventude de hoje em dia acreditam mais ainda no mesmo, do que nos outros que não permitem nossa Manaus evoluir ! Mas uma pergunta que sempre levo cmg , o PT acaba meio que “queimando” o filme do Zé Ricardo, pq o mesmo não muda de partido? Pelo que parece , isso acaba impedindo do mesmo ganhar as eleições. Grata !

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A AUTORA

Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff tem especialização em Gestão de Políticas Sociais e, atualmente, é diretora executiva da Agência e Revista Cenarium. Há 16 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Produziu matérias para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.

Paula Litaiff é Diretora de Redação em

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Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio extremamente perigoso…

(in Um Sopro de Vida | CLARICE LISPECTOR)