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Saudade, sonhos e planos interrompidos: meio milhão de mortes são mais do que estatística

Afonso Celso Ribeiro, de 59 anos, cuida da lápide da esposa Irinete Cunha, que morreu no dia 14 de janeiro (Marcela Leiros/Revista Cenarium)
Priscilla Peixoto – Da Revista Cenarium

MANAUS – “Dia 23 de junho fará um ano que perdemos nossa querida Carlinha. Ela era um anjo em forma de gente. Ela era cadeirante de nascença (sofria de atrofia dos membros inferiores e também era diabética), mas isso não a impedia de ir onde quisesse e nem de ser a alegria das reuniões em família e entre amigos. Era muito inteligente e sábia. Todos recorriam a ela quando precisavam de algum conselho. Era a hospitalidade em pessoa e sempre fazia um cafezinho para as visitas”.

Este é o depoimento cheio de saudades do professor Abel Santos, ao relembrar a amiga Carla Castro de 42 anos, carinhosamente chamada de Carlinha. A amazonense faz parte do índice atingido neste sábado, 19, onde o Brasil alcançou mais de 500 mil mortes ocasionadas pela Covid-19.

O País perde apenas para os Estados Unidos em números de vítimas, de acordo dados da Universidade Johns Hopkins, o País norte-americano registrou 601.574 mortes.  O primeiro registro da doença no Brasil foi em fevereiro de 2020. Em agosto de 2020, o País já registrava a marca de 100 mil mortes pela Covid-19.

No Brasil, o total de mortos chegou a 500.022 (Reprodução/ Marcela Leiros)

Não são só números

Em agosto de 2020, o País já registrava a marca de 100 mil mortes pela Covid-19. No dia 7 de janeiro de 2021 a estatística subiu para 200 mil, já no dia 12 de março de 2020, houve a primeira morte por Covid no mesmo mês em que o País atingia a marca de 300 mil vidas ceifadas passando para 400 mil vítimas no mês de abril.

Com a crescente contaminação, Abel conta que a amiga saiu de Manaus para o município de Iranduba (distante 40,5 da capital amazonense) em busca de maior proteção. Mesmo assim, Carla acabou se contaminando pelo vírus.

“Lembro que íamos até o hospital e ficávamos dentro do carro orando por ela que travou um período de luta, mas a Covid-19 venceu. Fizemos um cortejo pelas ruas do Iranduba e amigos dela do Jorge Teixeira, bairro onde ela residia em Manaus, e também da Compensa, onde fica a comunidade que ela fazia parte, se reuniram em carreata para seu sepultamento. Foram planos e sonhos dolorosamente interrompidos”, lamenta o amigo.

Amazonas

No Amazonas a somatória de mortes chega 13, 4 mil. Em janeiro deste ano, Manaus viveu o ápice da crise instalada na saúde ocasionada pelo aumentos de casos da Covid-19 e pela falta de oxigênio nas unidades de hospitalares. Crise que vitimou dona Maria da Conceição Rodrigues de Oliveira de 59 anos. No dia 15 de janeiro (um dos dias mais críticos da cidade em relação à pandemia).

“Perdemos a matriarca de nossa casa. Uma pessoa que não hesitava em ajudar as pessoas a matar sua fome, sede e quem precisasse de uma palavra amiga. Sempre pronta em ajudar, adorava trabalhar com o que trabalhava, um dote culinário que conquistou várias pessoas e quem provava seu tempero não esquecia.
Matou a fome de muitas pessoas que a procurava, hoje nos resta a saudade e as lembranças”, relembra.

“Infelizmente o que ela mais temia aconteceu, orava dias e noites pedindo que essa vacina fosse aprovada e liberada para que pudesse se imunizar e não ser afetada pelo vírus”, detalha emocionada a filha Michelle Rodrigues.

Michelle e a Mãe Maria da Conceição de 59 anos (Reprodução/ Arquivo Pessoal)

Erros e demora nas vacinas

Tanto para Abel quanto Michelle, muitas mortes poderiam ter sido evitadas, se não houvesse uma sucessão de erros, atrasos e “descasos” cometidos pelo Governo Federal. O negacionismo e a condução do País em meio à pandemia teria contribuído consideravelmente para o vazio deixado nas casas e nos planos de tantas famílias.

Fatores como o lento processo de vacinação, o “Kit Covid”, “tratamentos precoces”, a insistente recomendação do uso de hidroxicloroquina contra a Covid- 19 (sendo comprovadamente ineficaz pelos cientistas) são relembrados com tristeza por aqueles que ficaram.

“No caso dela, ainda estávamos na corrida pela vacina. Fico revoltado pelo fato de à época ela procurar refúgio e proteção, mas as pessoas que moravam lá com ela não se protegeram da mesma forma. A vacina deveria ter chegado ao Brasil ainda no final de 2020, mas houve omissão do governo federal. As pessoas precisam festejar mesmo, defender o SUS e exigir do poder público mais seriedade no combate à Pandemia. Perdemos 500 mil vidas e muitas poderiam ter sido salvas. Tudo é política, inclusive essas 500 mil mortes e outros milhões de sequelados pela Covid-19”, ressalta Abel.

Destino diferente

Para Michelle, se não fosse a falta de oxigênio e a demora nas vacinas ou tratamento correto, a matriarca do desfecho da história poderia ter sido diferente. “Pude estar ao seu lado e acompanhar sua luta para viver. Quando chegou a notícia que precisava ir para a sala fazer o procedimento de intubação nos olhamos e decidimos orar e pedir a Deus que a protegesse e que Deus pudesse iluminar os médicos naquele momento. Mas infelizmente faltou o que mais precisávamos naquele momento (o oxigênio). Minha mãe, uma pessoa muito fiel e ativa no templo de a igreja de Jesus Cristo, me ensinou naquele momento a ter calma e saber que Deus sabe de todas as coisas”, conta Michelle.

A filha ressalta, “Como amo tudo que me ensinou, dou valor a tudo que me mostrou da vida, e quanta falta ela me faz. No dia 10 de julho iríamos comemorar seus 60 anos e seria nossa alegria chegar a mais uma primavera e conquistar nossos planos que tanto fazíamos. Ela faz parte dessas mais de 500 mil vidas perdidas no Brasil. Nunca olharemos para esses números sem sentir a dor que só quem passou sabe. É uma mancha eterna para nossas vidas”, finaliza.

Na tarde deste sábado, 19, segundo os dados divulgados pelo consórcio de veículos de imprensa sobre a situação da pandemia no Brasil, o total de mortos chegou a 500.022, e o de casos confirmados, a 17.822.659, o levantamento é feito a partir de dados das secretarias estaduais de Saúde.



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A AUTORA

Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff tem especialização em Gestão de Políticas Sociais e, atualmente, é diretora executiva da Agência e Revista Cenarium. Há 16 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Produziu matérias para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.

Paula Litaiff é Diretora de Redação em

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O Site da Paula Litaiff tem como principal finalidade a emissão de opinião sobre diversos temas sociais, políticos e econômicos, levando o leitor à reflexão sobre a importância de se tornar um agente transformador da sociedade.


Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio extremamente perigoso…

(in Um Sopro de Vida | CLARICE LISPECTOR)