EDITORIAL – El Niño, seca extrema e o risco de colapso na Amazônia

 EDITORIAL – El Niño, seca extrema e o risco de colapso na Amazônia

O fenômeno pode provocar seca severa e prolongada, calor extremo, redução dos rios e aumento dos incêndios florestais (NOAA Satellites)

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A Amazônia está em transformação. Não por um movimento natural e inevitável, mas pela combinação entre desmatamento, queimadas e mudanças climáticas globais, como aponta Luciana Gatti em “Mudanças Climáticas no Brasil: estado da arte e fronteiras do conhecimento (2025)”.  A floresta que sempre ajudou a equilibrar o clima do planeta é pressionada por escolhas políticas, econômicas e territoriais que comprometem sua capacidade de produzir chuva, armazenar carbono e sustentar a vida.

A reportagem da REVISTA CENARIUM, Edição 73, mostra que o El Niño de 2026 avança enquanto os governos da Amazônia Legal apresentam níveis profundamente desiguais de preparação. O fenômeno pode provocar seca severa e prolongada, calor extremo, redução dos rios e aumento dos incêndios florestais. Mesmo diante de uma ameaça prevista por centros científicos nacionais e internacionais, alguns estados não apresentaram medidas concretas e outros sequer responderam aos questionamentos.

Na Amazônia, a mudança climática possui endereço, classe social, raça e gênero em interseccionalidade. São os povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e moradores das periferias urbanas que primeiro perdem o acesso à água, à alimentação, ao transporte e à saúde. Durante as secas extremas, mulheres chegaram a caminhar quilômetros sob calor intenso para buscar água, enquanto comunidades perderam roças, peixes e fontes tradicionais de alimentação. A crise ambiental, portanto, também é uma crise de direitos humanos.

Não se pode aceitar que, a cada nova seca, a população seja obrigada a assistir ao mesmo roteiro: rios transformados em bancos de areia, comunidades isoladas, peixes mortos, escolas fechadas, hospitais pressionados, fumaça cobrindo as cidades e governos anunciando providências tardias. Não é possível chamar de surpresa aquilo que a ciência acompanha, mede e comunica há décadas.

A ciência já cumpriu sua parte. A imprensa amazônica também cumpre a sua ao investigar, questionar governos e mostrar quem está preparado, e quem permanece em silêncio. O que falta é o poder público compreender que prevenção não é propaganda, decreto ou promessa. Prevenção é orçamento, planejamento, fiscalização e responsabilidade. O El Niño não pode servir de desculpa para mais uma tragédia anunciada. Quando o desastre pode ser previsto, a omissão deixa de ser despreparo e passa a ser escolha política.

O tema embasou a reportagem especial da Edição 73 da REVISTA CENARIUM:
Capa da REVISTA CENARIUM do mês de julho 2026

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