Paula Litaiff

EDITORIAL | Tragédia na Terra Indígena Yanomami: impotência e vergonha

Reunião do Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana. Demini, Terra Indígena Yanomami. (Lucas Lima/Reprodução)
Por Paula Litaiff – Para Revista Cenarium*

Desde a fundação da REVISTA CENARIUM, em abril de 2020, a equipe viu-se tocada, em diversos momentos, com imagens chocantes do início da pandemia, nas quais câmeras frigoríficas deixavam hospitais carregadas de corpos de vítimas de Covid-19 e assombravam o imaginário dos jornalistas. Esperava-se uma trégua.

Até que surgiu na internet, em maio de 2021, a fotografia de uma menina Yanomami de 8 anos com apenas 12 quilos (o peso mínimo normal para a idade é de 20 quilos), produzida na aldeia Maimasi, em Roraima, e concluiu-se que não há limites para um governo negacionista e inescrupuloso, como o do presidente Jair Bolsonaro.

De responsabilidade da União, a saúde indígena, assim como a gestão ambiental, vêm sofrendo desmontes desde a chegada de Bolsonaro ao poder e, apesar de toda a sua ignorância, ele nunca enganou a ninguém. Desde a campanha eleitoral de 2018, Bolsonaro e sua matilha deixaram claro a desobrigatoriedade com os direitos humanos, que ele associava a “direitos de bandidos”.

No Brasil, a população Yanomami é de 26.780 indivíduos (Sesai/ DSEI Yanomami, 2019) divididas em 360 comunidades. Dias depois da imagem da menina com desnutrição ganhar notoriedade, um menino de 1 ano morreu em situação semelhante depois de ter pedido de socorro negado. As duas tragédias expõem a desassistência que esses povos enfrentam na Amazônia.

As crianças tornaram-se símbolo do histórico descaso do Brasil com o povo Yanomami que tenta sobreviver em meio à violência dos garimpeiros ilegais e aos impactos ambientais. Sabe-se que os desafios sanitários e sociais não podem ficar dissociados do desmatamento, que, no último mês de abril, foi o maior em seis anos na Amazônia, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Na angústia de compreender a dor dos Yanomamis, importa lembrar um entendimento milenar de seu povo, de que a natureza é a extensão do ser humano e suas terminações nervosas estão intrinsicamente ligadas. Esta compreensão foi emprestada pela equipe da REVISTA CENARIUM para compor esta capa, diante de um cenário de guerra no qual o predador é o próprio “eu”. Uma síntese poética, mas absurdamente trágica.

“Na cultura Yanomami, a gente não pode demonstrar imagem de criança, frágil, doente, mas foi importante pela crise que estamos vivendo”, explicou o líder indígena Dario Kopenawa, aparentemente envergonhado, ao autorizar a publicação da imagem da menina à imprensa.

Dario precisa saber que a condição da menina Yanomami não é vergonha ao povo dele, mas é uma vergonha para nós, brasileiros, brancos, de classe média, que ainda não tivemos forças para depor um dos piores presidentes que o País já teve.

Capa da Revista Cenarium | Junho 2021 | Foto: Ricardo Oliveira/Agência Cenarium:

(*) O editorial foi publicado integralmente na versão impressa da Revista Cenarium. Para folheá-la no virtual ou obtê-la no físico, acesse aqui.

A AUTORA

Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff é diretora executiva da Revista Cenarium e Agência Amazônia, além de compor a bancada do programa de Rádio/TV “Boa Noite, Amazônia!”. Há 17 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Escreveu para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo com pautas sobre Amazônia. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.


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Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff é diretora executiva da Revista Cenarium e Agência Amazônia, além de compor a bancada do programa de Rádio/TV “Boa Noite, Amazônia!”. Há 17 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Escreveu para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo com pautas sobre Amazônia. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.

Paula Litaiff é Diretora de Redação em

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O Site da Paula Litaiff tem como principal finalidade a emissão de opinião sobre diversos temas sociais, políticos e econômicos, levando o leitor à reflexão sobre a importância de se tornar um agente transformador da sociedade.


Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio extremamente perigoso…

(in Um Sopro de Vida | CLARICE LISPECTOR)