Paula Litaiff

CPI deve cobrar prefeito de Manaus, aliado de Bolsonaro, sobre distribuição de ‘Kit Covid’

O presidente Jair Bolsonaro, o aliado, prefeito de Manaus, David Almeida, e a receita de cloroquina para Covid-19 (Agência Brasil e Semcom)

Paula Litaiff e Carolina Givoni – Da Revista Cenarium*

MANAUS e BRASÍLIA – Após atestar positivo para Covid-19, Alice Gonçalves*, 52, procurou a Unidade Básica de Saúde (UBS) Ivone Lima, na zona Leste de Manaus, administrada pela prefeitura, em fevereiro, quando mais de 200 pessoas morriam por dia pela doença e foi orientada a tomar Hidroxicloroquina e Ivermectina, entregues pela própria Prefeitura de Manaus. Uma semana depois, Alice teve o quadro de saúde agravado; com 60% do pulmão comprometido e 87% de saturação (o normal é 95%), ela procurou um pronto-socorro.

No hospital, Alice – assegurada da Prefeitura de Manaus – foi informada que a pasta responsável pelo credenciamento médico (ManausMed) suspendeu o serviço para todos os servidores e dependentes do município. Com ajuda de familiares, conseguiu internar-se em um pronto-socorro particular, onde ficou 14 dias e desembolsou mais de R$ 50 mil. Até hoje, ela trata sequelas físicas e psicológicas da Covid-19, causadas, principalmente, pela irresponsável prescrição de medicamentos não comprovados cientificamente e o caso de Alice seguirá para a Justiça.

“Eu sou só um caso entre tantos que foram gravemente prejudicados com a irresponsabilidade médica e de gestão em Manaus. Não são políticos e gestores que deveriam depor na CPI da Pandemia, mas pacientes que por pouco não morreram e familiares de mortos da Covid-19”, lamentou Alice, que pediu para modificar o nome para não sofrer represálias dentro da prefeitura.

Prefeito orientou profissionais

A orientação para os médicos fazerem tratamento precoce partiu do próprio prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), aliado do presidente Jair Bolsonaro, que no início da pandemia, em 2019, minimizou a letalidade do novo coronavírus e posteriormente defendeu medicamentos sem comprovação para serem administrados em pacientes.

Em janeiro, David Almeida, que se autodenomina evangélico e com 13 dias no cargo, confirmou, em entrevista à CNN Brasil, que orientou profissionais das Unidades Básicas de Saúde a aplicarem tratamento precoce nos pacientes, um procedimento condenado pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

“Estamos oferecendo à população da cidade de Manaus a informação que nos passaram de que, quando a pessoa sentir os primeiros sintomas, procure logo uma Unidade Básica de Saúde para que possa iniciar o tratamento de forma precoce”, declarou no vídeo.

E continuou a defesa de medicamentos para prevenir e combater a Covid-19, sem explicar a origem científica, prometendo ainda a sua “distribuição”. “Nós temos as medicações receitadas pelos médicos e esse tratamento é exatamente para que a doença não agrave. Porém, nós temos profiláticos e também vamos estar indicando a prescrição médica nos próximos dias e fazendo a distribuição”, afirmou.A declaração do prefeito de Manaus David Almeida foi dada no dia 13 de janeiro (Reprodução/CNN Brasil)

Manaus passou pela segunda onda da pandemia do novo coronavírus, entre janeiro e fevereiro, período em que as mortes por Covid-19 alcançaram 240 a cada 24 horas, segundo dados da Fundação de Vigilância Sanitária (FVS/AM). Na maioria dos casos, as vítimas morriam em casa por falta de leitos nos hospitais públicos e particulares.

O prefeito de Manaus, David Almeida, em coletiva de imprensa com o então ministro da Saúde Eduardo Pazuello em janeiro (Junio Matos)

Na reportagem da CNN, David Almeida citou o ex-ministro Eduardo Pazuello, alvo da CPI da Pandemia, que, em janeiro deste ano, visitou a cidade Manaus e, junto com assessores, defendeu o uso da Hidroxicloroquina. “O ministro esteve em Manaus (…) e trouxe uma força-tarefa da saúde para nos trazer auxílio aqui na cidade de Manaus com toda equipe do ministério”.

Confusão de informações

Destoando o que declarou o prefeito David Almeida à CNN Brasil há quatro meses, a Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) emitiu nota ontem, 12, informando que “não adota protocolos de tratamento e nem orienta os profissionais de saúde quanto ao uso de quaisquer tipos de medicamentos”.

“A Semsa Manaus ressalta que a definição de tratamento e prescrição de medicação são atos médicos, de responsabilidade de cada profissional médico. Em caso de conduta que fira o Código de Ética Médica, Estatuto dos Servidores Públicos ou a política nacional de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS), são adotados procedimentos administrativos adequados”, finaliza a secretaria em documento.

Prescrições médicas persistem

No dia 29 de abril, um paciente com Covid-19 em Manaus procurou a Unidade Básica de Saúde João Nogueira da Mata, na zona Leste da capital, e foi orientado a tomar medicamentos sem comprovação, sem ao menos passar por exame.

“O médico me passou Azitromicina e me passou Hidroxicloroquina e me indicou outra unidade de saúde da prefeitura para pegar os medicamentos”, disse a pessoa que preferiu não ter o nome divulgado, mas consentiu a imagem da receita médica.

Cloroquina é receitada em UBS da Prefeitura de Manaus (Reprodução autorizada)

O médico responsável pelo atendimento do paciente que prescreveu os remédios é Emanuel Jorge Akel Thomaz de Lima, presidente do Conselho Regional de Medicina do Amazonas (CRM-AM). O caso ganhou repercussão nacional com a matéria produzida pela TV Cenarium Web, parceira da TV Cultura Brasil.

Assista

https://www.youtube.com/embed/ZGD_dlVqkEg?feature=oembedReportagem sobre a prescrição da Cloroquina para a paciente de Manaus (Reprodução/ TV Cultura)

Pegou, mas não tomou

Depois de uma idosa com Covid-19 morrer após medicada com remédios sem comprovação científica, aumenta o medo de pacientes em Manaus que buscam atendimento para conter a doença e são usados como “cobaias”. Na UBS Morro da Liberdade, na zona Sul da capital amazonense, outro caso chamou a atenção.

No local, uma paciente relatou que foi orientada a usar Ivermectina para combater o coronavírus, sem ele ter em mãos a comprovação da doença causada pelo novo vírus. “Fui com a médica e ela disse que eu ia fazer o teste PCR [teste feito a partir da coleta de mucosa do nariz], mas o resultado sairia em sete dias. Mesmo assim, ela receitou os medicamentos para o tratamento precoce”, admitiu.

A paciente informou que a própria UBS entregou o “Kit Covid”. Ela relatou que pegou os medicamentos para poupar outras pessoas, mas não os usou. “Peguei porque tenho ciência de que se ficassem lá, outras pessoas poderiam tomar essa medicação que não tem qualquer efeito contra o coronavírus. Fiquei revoltada, buscamos atendimento e somos tratados como ratos de laboratório”, desabafou.

Azitromicina e Ivermectina fazem parte do Kit Covid (Reprodução autorizada)

Sem ‘habeas corpus’

Em 19 de abril deste ano, o vice-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Donizette Giamberardino Filho, afirmou que a instituição não endossa nenhum medicamento para tratamento da Covid-19, apesar de aprovar o parecer que facultou aos médicos a prescrição da Cloroquina e da Hidroxicloroquina para pacientes com sintomas leves, moderados e críticos de Covid-19.

“Esse parecer não é habeas corpus para ninguém. O médico que, tendo evidências de previsibilidade, prescrever medicamentos off label e isso vier a trazer malefícios, porque essa prescrição foi inadequada, seja em dose ou em tempo de uso, pode responder por isso”, argumentou Donizette.

Em nota, o Conselho Regional de Medicina do Amazonas (CRMAM) informou que segue o parecer do Conselho Federal de Medicina que respeita a autonomia do médico na forma de tratar o paciente, bem como a autonomia do paciente de querer ou não ser tratado pela forma proposta pelo médico. “As posições do parecer têm como objetivo o que é melhor para a população e o respeito absoluto aos médicos que estão na linha de frente no combate à Covid-19”, diz o órgão.

Prisão pedida

Alvo de pedido de prisão por má gestão da pandemia, o prefeito de Manaus, David Almeida, é o único prefeito do Brasil a ser convocado para prestar esclarecimentos na CPI da Pandemia após ele ser acusado pelo Ministério Público do Amazonas (MP-AM) de beneficiar fornecedores da prefeitura, filhos de aliados políticos e amigos na fila de prioridades da imunização da Covid-19 em fevereiro deste ano.

Entre os que furaram a fila está a secretária municipal de Saúde, Shádia Fraxe, esposa de um aliado político antigo de David Almeida, o deputado estadual do Amazonas, Abdala Fraxe (Podemos). Shádia é responsável direta da gestão das Unidades Básicas de Saúde na capital amazonense.

Ela e o prefeito David Almeida são alvos de três requerimentos da CPI da Pandemia e, além de terem que explicar sobre o privilégio na vacinação da Covid-19 em Manaus, vão esclarecer a suspensão dos atendimentos de Saúde a 40 mil segurados da ManausMed, fator destaque durante o recrudescimento da pandemia na capital amazonense em janeiro deste ano.

Além disso, o prefeito de Manaus também deve responder sobre um posicionamento concedido à imprensa local, onde afirmava saber previamente da alta na demanda por oxigênio em janeiro – mês marcado pela morte de pessoas por asfixia por falta do insumo hospitalar. Na gravação, David declara que a prefeitura estocou cilindros de oxigênio nas Unidades de Saúde da capital.

Veja tambémCPI da Pandemia: prefeito de Manaus, David Almeida, terá que responder a três requerimentos sobre atual gestão

(*) Colaborou o jornalista Gabriel Abreu

A AUTORA

Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff é diretora executiva da Revista Cenarium e Agência Amazônia, além de compor a bancada do programa de Rádio/TV “Boa Noite, Amazônia!”. Há 17 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Escreveu para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo com pautas sobre Amazônia. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.


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Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff é diretora executiva da Revista Cenarium e Agência Amazônia, além de compor a bancada do programa de Rádio/TV “Boa Noite, Amazônia!”. Há 17 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Escreveu para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo com pautas sobre Amazônia. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.

Paula Litaiff é Diretora de Redação em

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O Site da Paula Litaiff tem como principal finalidade a emissão de opinião sobre diversos temas sociais, políticos e econômicos, levando o leitor à reflexão sobre a importância de se tornar um agente transformador da sociedade.


Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio extremamente perigoso…

(in Um Sopro de Vida | CLARICE LISPECTOR)