Paula Litaiff

Terras Indígenas mais ameaçadas pelo desmatamento na Amazônia estão no Pará e em Rondônia, revela Imazon

A pesquisa do Imazon considera uma área de até 10 km de distância das reservas e foi, segundo o instituto, realizada com o objetivo de evitar que elas sejam invadidas (Gabriel Uchida/Reprodução)

Iury Lima – Da Revista Cenarium

VILHENA (RO) — Estudo publicado na semana de “Luta e Resistência dos Povos Indígenas” confirma algo que os guardiões da floresta dizem incansavelmente há muito tempo: as Terras Indígenas (TIs) da Amazônia estão padecendo, cada vez mais, com a ação de invasores, especialmente de garimpeiros e desmatadores ilegais dentro e fora das aldeias.

Os dados são do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e revelam que, de todas as TIs mais ameaçadas pela derrubada e queimadas de matas em seu entorno, 60% delas ficam no Pará, Estado seguido por Rondônia, que concentrou 40% dos territórios na mira do avanço da destruição ao longo de 2021.

O mapeamento que identificou e ranqueou as terras mais ameaçadas pela ação criminosa apontou, também, que está em Rondônia a TI mais ameaçada de todo o bioma: o lar do povo Uru-Eu-Wau-Wau, com população inferior a 250 pessoas. A pesquisa do Imazon considera uma área de até 10 km de distância das reservas e foi, segundo o instituto, realizada com o objetivo de evitar que elas sejam invadidas.

“Além de monitorar o desmatamento dentro das Terras Indígenas, é importante, também, entender a dinâmica do desmatamento ao redor desses territórios, porque conhecendo as áreas mais ameaçadas em relação ao desmatamento, é possível que os órgãos de fiscalização atuem de forma preventiva e que impeçam invasões e o uso ilegal desses territórios”, explicou à CENARIUM a pesquisadora do Imazon Larissa Amorim.

PA: combate e controle, já!

A especialista ressalta que “a maioria das Terras Indígenas que apresentam a maior ocorrência de desmatamento ao redor do limite territorial estão localizadas no Pará” e, que por isso, o Estado “necessita, urgentemente, de uma intensificação das ações de fiscalização e de combate ao desmatamento, priorizando esses territórios que estão sendo mais ameaçados e mais desmatados”, argumentou ela.

Ao longo de 2021, o Estado concentrou seis das dez TIs mais ameaçadas, ou seja, mais da metade dos territórios ranqueados.

Para a pesquisadora Larissa Amorim, a falta de fiscalização efetiva e a punição aos invasores abrem caminhos para o aumento da destruição dentro e fora das aldeias indígenas (Reprodução/Imazon)

Luta dos Uru-Eu-Wau-Wau

Considerando todas as ocorrências de desmatamento em 2021, ano em que a devastação da Floresta Amazônica foi a maior em pelo menos 14 anos, o Imazon aponta que a TI mais cercada pelo desmatamento foi a do povo Uru-Eu-Wau-Wau. O território percorre 12 dos 52 municípios rondonienses em uma área de quase 2 milhões de hectares.

‘Ameaça’, segundo o instituto, “é a medida do risco iminente de ocorrer desmatamento no interior de uma Área Protegida (AP)”. O Alerta de Desmatamento (SAD), outra medição feita pelo Imazon, confirma que a TI Uru-Eu-Wau-Wau foi a principal vítima da ameaça de desmatamento ao seu redor, tendo caído de posição nos meses finais, mas seguindo entre os dez territórios que mais correram perigo. 

Devastação flagrada dentro da Terras Indígenas Karipuna, em RO, pelo Greenpeance. Território foi o 8º mais ameaçado em 2021 (Christian Braga/Reprodução)

“A Terra Indígena mais ameaçada no ano passado foi a TI Uru-Eu-Wau-Wau, localizada em Rondônia (…) Apesar da forte ocorrência de desmatamento ao redor desta TI, ainda não houve uma intensificação desse desmatamento dentro do seu limite territorial. Este é um exemplo de onde deve ocorrer ação preventiva de forma que proteja esse território e impeça que ocorram invasões ilegais dentro dela”, enfatizou Larissa Amorim.

O território do povo Uru-Eu-Wau-Wau percorre 12 municípios de Rondônia por quase 2 milhões de hectares (Reprodução/Google Earth/ ISA)

Terras Indígenas mais cercadas pelo desmatamento em 2021:

1ª – TI Uru-Eu-Wau-Wau (RO)

2ª – TI Trincheira/Bacajá (PA)

3ª – TI Parakanã (PA)

4ª – TI Baú (PA)

5ª – TI Cachoeira Seca do Iriri (PA)

6ª – TI Arara (PA)

7ª – TI Aripuanã (MT)

8ª – TI Karipuna (RO)

9ª – TI Apyterewa (PA)10ª – TI Aripuanã (MT/RO)

10ª – TI Aripuanã (MT/RO)

Terras: luta e resistência

O guardião da floresta Ari-Uru-Eu-Wau-Wau, amigo de infância de Txai Suruí, citado por ela na COP26 e reconhecido em festivais internacionais de cinema pelo documentário “O Território”, foi uma das vozes do ativismo indígena silenciadas por posseiros de terras.

Ari morreu aos 34 anos, assassinado por denunciar a invasão da TI de seu povo e a exploração madeireira. O crime completou dois anos nesta última semana de abril e, até hoje, não teve solução.

Outdoor exposto em Porto Velho, capital de Rondônia, pede justiça pelo morte do guardião do território Uru-Eu-Wau-Wau (Reprodução/Redes Sociais)

Direitos garantidos, escudo erguido

Ainda de acordo com o Imazon, no último ano, as Terras Indígenas foram a categoria territorial que mais impediram o avanço do desmatamento, apesar da grande ameaça e pressão ao redor (que aumentou 29% em 2021). Daí, a evidência de que a demarcação é necessária não só para assegurar os direitos dos povos originários à terra, mas, também, para garantir a manutenção dos ecossistemas da Amazônia. 

O ano passado fechou com 10.362 quilômetros quadrados de destruição do bioma, sendo que apenas 2,5% disso, ou seja, 263 quilômetros quadrados, foram registrados dentro das TIs. “Demarcar novas áreas é uma ação efetiva de combate ao desmatamento”, constatou o estudo do Imazon. 

A AUTORA

Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff é diretora executiva da Revista Cenarium e Agência Amazônia, além de compor a bancada do programa de Rádio/TV “Boa Noite, Amazônia!”. Há 17 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Escreveu para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo com pautas sobre Amazônia. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.


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Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff é diretora executiva da Revista Cenarium e Agência Amazônia, além de compor a bancada do programa de Rádio/TV “Boa Noite, Amazônia!”. Há 17 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Escreveu para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo com pautas sobre Amazônia. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.

Paula Litaiff é Diretora de Redação em

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O Site da Paula Litaiff tem como principal finalidade a emissão de opinião sobre diversos temas sociais, políticos e econômicos, levando o leitor à reflexão sobre a importância de se tornar um agente transformador da sociedade.


Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio extremamente perigoso…

(in Um Sopro de Vida | CLARICE LISPECTOR)