#Factuais

Rondônia perdeu quase 70 mil campos de futebol para a exploração madeireira em um ano

Porto Velho, a capital rondoniense, concentrou 42% do prejuízo ambiental. (Reprodução/ Imaflora)

Iury Lima – Da Cenarium

VILHENA (RO) – A exploração madeireira foi responsável pelo desaparecimento de 69.794 hectares de vegetação, ou seja, o equivalente a quase 70 mil campos de futebol, em Rondônia, entre agosto de 2019 e julho de 2020. A pesquisa inédita sobre o terceiro maior Estado da região Norte apontou que, desse total, 5.814 hectares foram devastados sem nenhum tipo de licença ambiental, portanto, de maneira ilegal, sendo que Porto Velho, a capital rondoniense, concentrou 42% de tal prejuízo.

Os dados são do Sistema de Monitoramento da Exploração Madeireira (Rede Simex), composto pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas (Idesam), Instituto de Manejo e Certificação Florestal (Imaflora) e Instituto Centro de Vida (ICV). Juntas, as quatro instituições levantam o tamanho da destruição causada pela prática em toda a Amazônia, seja legalizada ou não. Ao todo, a floresta tropical, considerada a maior do planeta pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), perdeu uma área superior a meio milhão de hectares durante o período de um ano.

Madeira retirada de forma ilegal de Terra Indígena em Rondônia. (Reprodução/ Polícia Federal)

Municípios em situação crítica

Porto Velho ficou em 1º lugar no ranking de municípios rondonienses que mais devastaram a floresta amazônica por meio da extração de madeira. A capital derrubou 29.646 hectares de vegetação. Machadinho d’Oeste aparece logo em seguida, com 8.129 hectares, e Candeias do Jamari, com 6.317 hectares, na terceira colocação. Ao todo, dez municípios figuram em situação crítica. A lista encerra com Vilhena (a 705 quilômetros de Porto Velho), responsável pela exploração de cerca de 1.500 campos de futebol.

Ao todo, dez cidades apresentam os dados mais alarmantes. (Arte: Rede Simex)

Esses dez municípios também geraram, ao todo, 75% do total de madeira em tora, produzida em Rondônia, que foi de 1.150.830 metros cúbicos.

Falta transparência

De acordo com a Rede Simex, “devido à falta de dados públicos completos, não foi possível analisar a legalidade da extração de madeira em todo o território rondoniense”, uma enorme falha da gestão estadual, na avaliação do coordenador sênior de Projetos do Imaflora, Marco Lentini. 

“A falta de dados disponíveis sobre as áreas florestais licenciadas para exploração do estado, de fato, dificulta que os sistemas e ferramentas desenvolvidos pela sociedade civil possam caracterizar melhor o problema e, mesmo para que tais informações possam apoiar nas ações de fiscalização, comando e controle”, disse Lentini em entrevista à CENARIUM.

O coordenador sênior de Projetos do Imaflora, Marco Lentini. (Reprodução/ Imaflora)

Lentini acredita ser fundamental que o Estado, os especialistas e as entidades do terceiro setor possam dialogar e trabalhar em conjunto para encontrar soluções, “tanto que possam fazer as rotinas de licenciamento de controle mais eficientes, quanto possam desenhar estratégias de mercados e de fomento que apoiem aos produtores interessados na legalidade”, pontuou o especialista.

“Na ausência destas informações, não é conhecida a extensão dos danos provocados pela exploração ilegal. Entretanto, as pessoas podem ter em mente que um dos indicadores negativos desta situação é o aumento da exploração de áreas legalmente protegidas, como as Terras Indígenas e Unidades de Conservação de Proteção Integral, assim como o desmatamento, que continuam a crescer na Amazônia e no estado de Rondônia, que não é exceção”, destacou. 

Áreas (des)protegidas

A avaliação do coordenador Marco Lentini sobre área de preservação ambiental é certeira quando aponta que a falta de transparência alimenta o crescimento da devastação. O atual estudo realizado pela Rede Simex determina que, dos quase 70 mil campos de futebol de árvores arrancadas, cerca de 5 mil foram dentro de Terras Indígenas (TIs) e Unidades de Conservação (UCs), ou seja, ilegalmente.

A TI mais afetada foi Tubarão Latunde, localizada em Chupinguaia, concentrando 68% das explorações realizadas dentro de territórios de povos tradicionais, em Rondônia. A TI, onde vivem 195 pessoas de três etnias diferentes, perdeu 2.242 hectares. Rio Omerê foi outro território devastado, com perda de 1.065 hectares.

Quanto às UCs de proteção integral, onde também é proibido extrair madeira, 86% da exploração atingiu o Parque Nacional dos Campos Amazônicos. “A área protegida é localizada no norte de Rondônia, na divisa com o Amazonas e o Mato Grosso, região que enfrenta alta pressão pela destruição da floresta”, detalhou o estudo.

Extração ilegal de madeira avançou por mais de 5 mil hectares dentro de Terras Indígenas e Unidades de Conservação. (Arte: Rede Simex)

Para o coordenador sênior de Projetos do Imaflora, as Unidades de Conservação e as Terras Indígenas têm se tornado alvo de um conjunto de ações ilegais, desde a exploração ilegal, o garimpo e o posterior desmatamento, com o intuito de grilagem e especulação fundiária.

“Estas áreas passaram a estar muito vulneráveis, nos últimos anos, devido à queda generalizada de recursos direcionados a diferentes entidades federais e estaduais para a fiscalização, controle, ordenamento do território, regularização fundiária e licenciamento. Além disso, sabemos hoje que a fragilidade dos sistemas de controle permite que a madeira extraída ilegalmente destas áreas seja ‘esquentada’, ou seja, que consiga ainda chegar aos mercados com documentos que comprovam sua suposta legalidade”, concluiu Lentini.

O ativista, tecnólogo em Gestão Ambiental e Conselheiro da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, de Rondônia, Edjales Benício, lamentou a devastação de áreas protegidas. Ele teme a demora pela recuperação do bioma amazônico em locais frequentemente atingidos, “se é que é possível recuperar em alguns casos”, como o próprio diz. “O impacto é muito forte. A destruição, infelizmente, é muito mais rápida do que a construção”, declarou. 



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A AUTORA

Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff tem especialização em Gestão de Políticas Sociais e, atualmente, é diretora executiva da Agência e Revista Cenarium. Há 16 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Produziu matérias para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.

Paula Litaiff é Diretora de Redação em

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O Site da Paula Litaiff tem como principal finalidade a emissão de opinião sobre diversos temas sociais, políticos e econômicos, levando o leitor à reflexão sobre a importância de se tornar um agente transformador da sociedade.


Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio extremamente perigoso…

(in Um Sopro de Vida | CLARICE LISPECTOR)