Paula Litaiff

Na região metropolitana de Manaus, cheia do rio Negro afeta quase 17 mil famílias no Cacau Pirera

Distrito de Cacau Pirêra fica a 17 quilômetros de Manaus. (Gabriel Abreu/Revista Cenarium)
Gabriel Abreu – Da Revista Cenarium

MANAUS – Mais 17 mil pessoas que vivem no Distrito de Cacau Pirera, localizada no município de Iranduba, Região Metropolitana de Manaus, estão sendo afetadas pela cheia do rio Negro. Nesta quarta-feira, 26, o nível do rio atingiu a marca de 29,92 metros e a comunidade banhada pelo curso das águas precisa se adaptar ao novo cenário causado pela enchente recorde de 2021.

REVISTA CENARIUM esteve no município e presenciou de perto o drama e as dificuldades enfrentadas pelos moradores do Cacau Pirera. No dia 7 de maio, a Defesa Civil de Iranduba começou a construir as pontes, por conta da subida das águas do rio Negro. O prefeito do município, Augusto Ferraz (DEM), decretou situação de emergência no início do mês.

Feira inundada

Uma feira que diariamente recebe mais de cinco mil pessoas está completamente debaixo da água e, segundo os permissionários do mercado, há duas semanas as águas começaram a subir e inundaram todo o espaço. Há mais de 40 anos, Carlito Gomes teve que subir o assoalho para continuar no local, já que não tem como deixar a mercadoria.

“Não temos para onde ir, e nem como deixar a mercadoria aqui, pois alguém pode levar. A cheia deste ano está muito parecida com a de 2012, o jeito é continuar aqui e tentar vender o que sobrou”, desabafa o comerciante.

Carlito Gomes não saiu da feira do Cacau Pirera por conta da cheia das mercadorias. (Gabriel Abreu/Revista Cenarium)

Nova Veneza

No bairro Nova Veneza, na rua III, a Prefeitura de Iranduba construiu pontes de madeira, mas quem mora no local reclama da forma que a estrutura foi feita, pois crianças e gestantes já se acidentaram. Um desses exemplos é de Gisele Lopes, grávida de cinco meses, que mora numa casa de madeira com o marido, filhos, sobrinhos e a mãe. A casa simples foi construída a 30 metros para aguentar a subida das águas.

“O meu filho caiu e fui tentar ajudá-lo, quando senti uma tonteira e caí no rio. Falaram para a gente que iam dar um auxílio de R$ 300, mas até agora nada”, disse Gisele.

Gisele Lopes com a família que mora há nove anos no bairro Nova Veneza (Gabriel Abreu/Revista Cenarium)

Outro desafio que Gisele relata é de receber água potável tratada nas torneiras, segundo ela, “a água só dá 30 minutos e uma vez por dia, se perder esse horário já era, não teremos a oportunidade de tomar banho com água boa”, contou Gisele, que mora há 11 anos no local.

Procurada para comentar as ações que estão sendo tomadas no Distrito de Cacau Pirera, a Prefeitura de Iranduba não enviou nota até a publicação desta reportagem.

Cheia no Amazonas

O nível dos rios no Amazonas já registra recordes, segundo a Defesa Civil Estadual, que divulgou nesta quarta-feira, 26, que 58 municípios do Estado já sofrem com a subida das águas dos rios Solimões, Negro, Juruá, Purus e Madeira, 25 cidades estão em situação de emergência, 18 estão em situação de transbordamento, dez em alerta e cinco em atenção. São mais de 400 mil pessoas afetadas pelo fenômeno.

Em Manaus, o nível do rio Negro alcançou nesta quarta-feira, 26, a marca de 29 metros e 92 centímetros, faltando sete centímetros para atingir a cota de 2012, que foi de 29 metros e 97 centímetros. Mais de 25 mil pessoas que moram em 15 bairros da capital do Amazonas já sentem os reflexos da enchente do rio Negro. Nos próximos dias, a previsão é que o rio Negro ultrapasse o recorde e alcance 30 metros, segundo o Serviço Geológico do Amazonas (CPRM).

Segundo Luna Gripp, pesquisadora em geociências responsável pelo Sistema de Alerta Hidrológico (SAH) da Bacia do Amazonas, o grande volume de chuvas observado no princípio do ano fez com que o nível dos rios amazônicos subisse rapidamente, padrão este que está atuante até agora.

Assim, mesmo que o padrão de chuvas observados se mantenha dentro do esperado para o período daqui para frente, o fato dos níveis dos rios já estarem expressivamente altos, contribui para as altas probabilidades apresentadas, de observamos cheias de grandes magnitudes nesses rios em 2021.

Auxílio Estadual

O governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), anunciou na segunda-feira, 24, a segunda fase de distribuição do Auxílio Estadual Enchente para atender, além de Careiro da Várzea, os municípios de Juruá, Guajará, Ipixuna, Eirunepé, Itamarati, Carauari, Manaus, Anori, Manacapuru e Envira com 38 mil cartões, cada um com o valor de R$ 300.

A distribuição é feita em parceria entre a Defesa Civil do Estado e dos municípios. Os seis primeiros municípios a receber os 13.513 cartões do Auxílio Estadual Enchente estão sendo os de Pauini, Canutama, Boca do Acre, Tapauá, Lábrea e Anamã. A entrega aos moradores tem sido feita gradativamente, priorizando famílias e comunidades de difícil acesso, atingidas pela cheia dos rios.

A AUTORA

Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff é diretora executiva da Revista Cenarium e Agência Amazônia, além de compor a bancada do programa de Rádio/TV “Boa Noite, Amazônia!”. Há 17 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Escreveu para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo com pautas sobre Amazônia. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.


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Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff é diretora executiva da Revista Cenarium e Agência Amazônia, além de compor a bancada do programa de Rádio/TV “Boa Noite, Amazônia!”. Há 17 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Escreveu para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo com pautas sobre Amazônia. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.

Paula Litaiff é Diretora de Redação em

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O Site da Paula Litaiff tem como principal finalidade a emissão de opinião sobre diversos temas sociais, políticos e econômicos, levando o leitor à reflexão sobre a importância de se tornar um agente transformador da sociedade.


Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio extremamente perigoso…

(in Um Sopro de Vida | CLARICE LISPECTOR)