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Morte de onça-pintada que apareceu debilitada em aeroporto de RO chama atenção para impactos gerados pelo desmatamento

Destruição do meio ambiente coloca ainda mais risco à espécie já ameaçada de extinção. Só em fevereiro, o desmatamento aumentou 190% em Rondônia (Reprodução/Carlos Mont Serrate)

Iury Lima – Da Revista Cenarium

VILHENA (RO) – Os impactos ambientais gerados pelo desmatamento da Amazônia podem ter contribuído para a morte de uma onça-pintada que apareceu debilitada no aeroporto de Vilhena, cidade do interior de Rondônia, no último sábado, 9. É o que aponta a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma), ao avaliar que a presença de animais selvagens não é comum em centros urbanos e que a degradação do habitat dessas espécies geram impactos que podem ser irreversíveis à saúde delas e à manutenção dos ecossistemas.

“Esses animais acabam vindo para a cidade por questões de desmatamento e pela degradação do ambiente. As onças são animais com territórios muito grandes, elas andam longas distâncias atrás de alimento. Existem as criações de animais em propriedades rurais, também, que podem atrair esses animais. As plantações atraem porcos-do-mato, que servem de alimento para essas onças, por exemplo. Além disso, a cidade, por estar crescendo cada vez mais, acaba invadindo o habitat desses animais e acontecem esses encontros”, explicou o assessor da Semma, Rafael Fonseca.

A espécie, considerada o maior felino das Américas, sendo ainda o terceiro maior carnívoro de todo o planeta, está ameaçada de extinção. De acordo com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a onça-pintada ocupa 89% da extensão da Floresta Amazônica, mas tem uma população relativamente pequena, com menos de 10 mil indivíduos contabilizados até 2013.

Debilitada, a onça buscou repouso debaixo de um caminhão no aeroporto de Vilhena, RO (Reprodução/Rafael Fonseca)

Retrato trágico

A onça-pintada foi examinada por dois veterinários voluntários após ter sido resgatada e sedada. Eles confirmaram a presença de infecções decorrentes de lesões, que podem ter sido causadas por outros animais ou pela atuação de caçadores. No entanto, a causa da morte não foi revelada.

Para as autoridades em meio ambiente e veterinários que atenderam ao caso, o que também pode ter motivado o trânsito do animal pela área urbana é a busca por comida, devido à falta de alimento em seu habitat natural; outro retrato do impacto gerado pelo desmatamento na região. 

Segundo Fonseca, não foi possível estimar a idade aproximada do animal, mas se tratava de uma fêmea adulta.

Para Rafael Fonseca, da Semma de Vilhena, a expansão da cidade e o desmatamento contribuem para os impactos causados à saúde e comportamento das espécies selvagens (Reprodução/Arquivo Pessoal)

‘Visita’ inesperada

Foi um funcionário do Aeroporto Brigadeiro Camarão quem avistou a onça, primeiro, aparentemente, ‘descansando’ debaixo de um caminhão. A ‘visita’ ocorreu  na estação de abastecimento da unidade, por isso, algumas atividades do aeroporto foram, parcialmente, suspensas.

O resgate mobilizou o Corpo de Bombeiros, a Polícia Militar e a Polícia Ambiental, além da Semma. Uma ação que levou mais de 10 horas. Para tranquilizar o animal, os agentes utilizaram uma ‘zarabatana’ com dardos tranquilizantes.

“Caso alguém se depare com qualquer animal silvestre, em Vilhena, a gente pede sempre para ligar para a Secretaria de Meio Ambiente, para o Corpo de Bombeiros ou para a Polícia Ambiental, que algum desses órgãos vai tomar as medidas cabíveis, sempre visando o bem-estar do animal e da sociedade”, enfatizou Rafael Fonseca.

RO está entre os líderes de desmatamento

Rondônia é recordista em desmatamento da Amazônia, bioma do qual faz parte junto de outros oito Estados da região. Apenas no mês de fevereiro, o território rondoniense foi o 4º que mais desmatou a floresta, segundo o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon); daí a relação entre degradação ambiental e as modificações no comportamento e impactos à saúde de bichos selvagens.

O crescimento foi de 190% em relação ao mesmo período analisado pelo Imazon em 2021. Foram derrubados 29 quilômetros quadrados de floresta nativa.



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A AUTORA

Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff tem especialização em Gestão de Políticas Sociais e, atualmente, é diretora executiva da Agência e Revista Cenarium. Há 16 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Produziu matérias para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.

Paula Litaiff é Diretora de Redação em

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O Site da Paula Litaiff tem como principal finalidade a emissão de opinião sobre diversos temas sociais, políticos e econômicos, levando o leitor à reflexão sobre a importância de se tornar um agente transformador da sociedade.


Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio extremamente perigoso…

(in Um Sopro de Vida | CLARICE LISPECTOR)