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Jovens indígenas e ribeirinhos veem nas águas do AM chance de conquistar espaço na canoagem olímpica

Modalidade olímpica desde 1936, a canoagem está presente no cotidiano desses jovens (Ricardo Oliveira/Cenarium)


Bruno Pacheco – Da Revista Cenarium

MANAUS — Uma população que nasceu sob a influência das águas e sonha em, pelas águas, ganhar o mundo. Jovens indígenas e ribeirinhos, juntos, que vivem na comunidade indígena Três Unidos, do povo Kambeba, na região do interior do Amazonas, veem na foz do Rio Cuieiras, afluente do Rio Negro (a 60 quilômetros de Manaus), a oportunidade para conquistar espaço na canoagem, uma modalidade olímpica desde 1936, que está presente no cotidiano dessas pessoas.

No último sábado, 9, a Fundação Amazônia Sustentável (FAS), em parceria com a Confederação Brasileira de Canoagem (CBCa) e a Embaixada da Irlanda, realizou a 2ª edição do Campeonato Regional de Canoagem Indígena na região. O torneio, que contou com a presença inédita do medalhista paralímpico em Tóquio 2020, Fernando Rufino, o “cowboy de aço”, começou por volta das 9h30 e durou o dia todo.

Medalhista paralímpico em Tóquio 2020, Fernando Rufino (de boné) remando ao lado de jovem indígena (Ricardo Oliveira/Cenarium

Os jovens, incentivados pelo “cowboy de aço”, pela vice-presidente da Confederação Brasileira de Canoagem (CBCa), Luciana Costa, e pelo diretor-geral da entidade, Rodrigo Miranda, realizaram provas nas categorias de 500m feminino 6k1; 200m infantil misto 4k1; 500m masculino juvenil 13 e 14 anos 4k1; 500 masculino aberto 16 a 23 anos 6k1; 200m feminino 6k1; 200m juvenil 15 anos 5k1; 200m juvenil 13 e 14 anos 4k1; 200m masculino aberto 16 a 23 anos 6k1 e o desafio 2 grupos.

Jovens indígenas e ribeirinhos sonham em ganhar o mundo por meio da canoagem (Ricardo Oliveira/Cenarium)

Para o campeão Fernando Rufino, a competição é o momento de buscar e encontrar novos talentos da canoagem. À CENARIUM, o “cowboy de aço” contou sobre a sensação de visitar o Amazonas e a comunidade pela primeira vez. “Estar aqui, pegando essa energia original, é maravilhoso. Paris 2024 é a próxima Olimpíada e, se Deus quiser, quem sabe um de vocês vai estar lá representando. Tem muito chão pela frente ainda e vamos contar com essa torcida”, disse Rufino.

Fernando Rufino conquistou a primeira medalha de ouro da história da canoagem brasileira em uma edição de Paraolimpíada (Miriam Jeske/CPB/Direitos Reservados)

Aos jovens atletas, o “cowboy” se tornou uma inspiração. Natural de Itaquiraí, em Mato Grosso do Sul, Fernando Rufino ganhou o apelido por escapar da morte três vezes. Com 21 anos, ainda quando era peão de rodeio, Rufino sofreu um acidente ao cair de um touro. Anos depois, o campeão caiu de moto e foi atingido por um raio. Ele ficou paraplégico, no entanto, quando viajava em um ônibus. O veículo escorregou na pista e o mato-grossense sofreu uma lesão na medula óssea.

Exemplo na canoagem

Para Tailon Pontes de Araújo, de 17 anos, canoísta e um dos vencedores do torneio, o “cowboy de aço” é mais que um exemplo, é a motivação para continuar no esporte. “Só gratidão por ele estar aqui, dando mais motivação. Assim, nós temos mais motivação ainda para remar”, declarou jovem.

Tailon é considerado pela comunidade como uma promessa no esporte (Ricardo Oliveira/Cenarium)

“Meu maior sonho é ser um atleta da Seleção Brasileira de alto nível, ser o melhor da minha modalidade. Para chegar lá, temos que correr contra o tempo, fazer um tempo bom e ganhar uma vaga na Seleção”, continuou Tailon.

Considerado pela comunidade como uma promessa no esporte, Tailon treina de segunda a sábado, das 6h às 9h e 15h às 18h, ao lado dos irmãos Antônio Filho e Thais Pontes. Juntos, o trio é motivo de orgulho para o pai, Antônio Lima de Araújo.

Da esquerda para direita, Tailo Pontes, o pai Antônio Lima, e os irmãos Antônio Filho e Thais Pontes (Ricardo Oliveira/Cenarium)

“Imagino eles tendo aquelas oportunidades que eu não tive. Eu quero que eles sejam alguma coisa na vida, a chance que eu não tive. Mas isso vai depender deles também. Eu com a mãe deles torcemos muito pelos nossos filhos”, contou o pai.

À CENARIUM, Araújo conta que o gosto pela canoagem surgiu ainda criança nos filhos, quando eles costumavam brincar com os peixes no Rio Cuieiras. Com a chegada do projeto na comunidade, lembra o pai, os meninos começaram a participar das atividades e mostraram capacidade e resistência no esporte. Hoje, Antônio acredita que a modalidade seja apenas o primeiro passo para que os filhos tenham uma vida melhor.

Antônio Filho é o caçula da família. Aos 14 anos, o jovem é um prodígio da canoagem velocidade, onde o atleta rema de joelho sob a canoa (Ricardo Oliveira/Cenariu

“Eu não tive essas oportunidades. Estudei até a 7ª série e não tive mais como seguir porque era muito difícil. A cidade era muito distante e eu parei por aí mesmo. Hoje, construí família e me dedico somente a ela. A vontade que tenho é terminar de criar meus filhos e ver eles num futuro melhor, para não pegar no trabalho pesado. Acredito que o esporte vai dar essa oportunidade para eles”, comentou.

Incentivo

Uma das pioneiras da canoagem feminina no País, Luciana Costa destacou à CENARIUM o desejo de ver mais mulheres na modalidade esportiva, o incentivo ao esporte e a mensagem deixada aos indígenas e ribeirinhos de Três Unidos. Ex-atleta, a vice-presidente da CBCa é natural de Ilhéus e moradora de Ubaitaba, município da Bahia onde nasceu Isaquias Queiroz, um dos principais nomes da canoagem mundial na atualidade.

“Os talentos maravilhosos que temos aqui estavam apenas precisando ser lapidados. Com certeza, podemos estar tirando daqui um futuro promissor atleta e a gente tem apenas que incentivar. Como eu falei para os jovens, eles têm que acreditar. Nunca desistir. Continuar fazendo o que eles gostam, que é a prática da canoagem”, disse a vice-presidente.

Para Luciana, os talentos amazonenses precisavam ser lapidados (Ricardo Oliveira/Cenarium)

Para Luciana, um dos maiores desafios no esporte é a falta de projetos sociais de apoio à canoagem. “É por meio dos projetos sociais que nós temos os grandes talentos. Se não tivermos o incentivo do social, nós não temos como descobrir o talento. Quando mais a gente tiver apoio para estar abraçando nossos projetos, nós iremos ter grandes sucessores”, frisou Luciana Costa.

O projeto

O campeonato é fruto do projeto “Canoagem Indígena”, realizado pela FAS desde 2019, em Três Unidos e nas comunidades próximas Nova Kanã e São Sebastião, que ficam na Área de Proteção Ambiental (APA) do Rio Negro, administrada pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas (Sema). A iniciativa, que busca valorizar os jovens por meio do esporte, é desenvolvida em parceria com a CBCa, que doou as embarcações utilizadas pelos jovens nos treinos diários.

Desde 2019, segundo a FAS, o projeto já beneficiou cerca de 60 atletas indígenas e ribeirinhos das três comunidades. Para o superintendente da fundação, Victor Salviati, um dos maiores objetivos do projeto é promover a cidadania por meio do esporte.

Um dos maiores objetivos do projeto é promover a cidadania por meio do esporte (Ricardo Oliveira/Cenarium)

“A FAS trabalha com essa tecnologia social de trazer a cidadania para dentro da comunidade. No esporte, obviamente, queremos ter atletas de alto rendimento. Contudo, o mais importante é como a cidadania vem com o esporte. Estamos aqui, em Três Unidos, junto com a Bemol, a Embaixada da Irlanda e o governo do Estado para prover para essas pessoas da população Kambeba a cidadania por meio do esporte”, destacou Victor Salviati.



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A AUTORA

Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff tem especialização em Gestão de Políticas Sociais e, atualmente, é diretora executiva da Agência e Revista Cenarium. Há 16 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Produziu matérias para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.

Paula Litaiff é Diretora de Redação em

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O Site da Paula Litaiff tem como principal finalidade a emissão de opinião sobre diversos temas sociais, políticos e econômicos, levando o leitor à reflexão sobre a importância de se tornar um agente transformador da sociedade.


Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio extremamente perigoso…

(in Um Sopro de Vida | CLARICE LISPECTOR)