Paula Litaiff
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#Factuais

‘Índio do Buraco’: último de etnia dizimada e símbolo de resistência de povos isolados morre em RO

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Iury Lima – Da Revista Cenarium

VILHENA (RO) – Considerado um exemplo da luta dos Povos Indígenas isolados do Brasil, o “Índio do Buraco” viveu por quase 30 anos rejeitando contato com a sociedade externa e encarando seu luto à própria maneira. Ninguém nunca soube o nome, a etnia ou a língua dele, mas ele ficou conhecido, também, por ser “o homem mais solitário do mundo”, pela forma como decidiu passar os últimos anos em vida, abrindo buracos no chão da floresta, na Terra Indígena (TI) Tanaru, em Rondônia.

Ele foi encontrado morto por funcionários da Fundação Nacional do Índio (Funai), na última terça-feira, 23, deitado em uma rede feita de palha, vestindo roupas tradicionais e paramentado com penas de araras, como se estivesse preparado para o fim da jornada. O corpo dele foi levado para o Instituto Médico Legal (IML) de Porto Velho, mas a causa do falecimento ainda é desconhecida. 

“Ele era o último remanescente de um povo”, disse a indigenista da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé de Rondônia, Neidinha Suruí, à REVISTA CENARIUM“É lamentável ver, em pleno século 21, o desaparecimento de um povo. E é o que nós acabamos de presenciar em Rondônia, e isso é um retrato claro de como, em Rondônia, é tratada a causa indígena”, lamentou.

Conhecido como “Índio do Buraco”, o último remanescente de uma etnia inteira abria covas na floresta, em Rondônia (Funai/Reprodução)

Extinção completa

A Terra Tanaru se espalha, em 8 mil hectares, por quatro municípios do interior rondoniense: Chupinguaia, Corumbiara, Parecis e Pimenteiras do Oeste; uma área que sofre grande pressão de políticos, fazendeiros de gado e invasores de todo o tipo visando a explorar a floresta de forma ilegal. 

“Esse indígena foi fugindo do contato, porque todo o seu povo foi morto. Ele era um símbolo da resistência dos povos isolados contra o contato. Quando a Funai tentou contatá-los, ele jogou uma flecha nos funcionários (….) A luta desse indígena, que viu todo o seu povo dizimado, sobrando apenas ele, é uma luta superimportante na defesa dos Direitos Humanos”, afirmou Neidinha Suruí.

Para a ativista Neidinha Suruí, a extinção da etnia é o fiel retrato de uma “política anti-indígena” em curso no Brasil (Gabriel Uchida/Kanindé/Reprodução)

Ambientalistas como a ativista indígena Txai Suruí lamentaram a perda. “O Brasil inteiro deveria estar de luto”, escreveu em uma rede social. “Era um símbolo de resistência e do que a sociedade não-indígena, capitalista e colonizadora trouxe para os Povos Originários”, acrescentou a liderança.

Perigo aos povos que resistem

Além de um fiel retrato da “política anti-indígena”, o que fica, agora, é o perigo para os povos que ainda resistem ao contato e a incerteza sobre o destino da TI Tanaru.

Com a morte do “Índio do Buraco”, toda uma parte da história dos Povos Originários de Rondônia se apaga, restando apenas sete de um total de oito grupos isolados habitando territórios do Estado.

“O que nós esperamos, é que aquela terra onde o massacre causado por fazendeiros e grileiros, que dizimou esse povo do território Tanaru, que seja preservada, que não seja destruída, pois ela é um símbolo da resistência do povo indígena. Que ela seja conservada para proteção da floresta, como uma demonstração de que o governo federal tem algum compromisso com a questão dos povos indígenas, bem como a sociedade”, concluiu a indigenista da ONG Kanindé.

Funai

Entidade responsável por acompanhar e monitorar a garantia dos direitos de populações isoladas, o Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (OPI), informou à REVISTA CENARIUM que aguarda posicionamento oficial da Funai. Já o órgão do governo federal, procurado pela reportagem para comentar o caso e como vem promovendo a proteção de etnias ainda não contatadas, não deu esclarecimentos, mas disponibilizou em seu site uma nota de pesar. 

Nota de pesar da Funai na íntegra:

A Fundação Nacional do Índio (Funai) informa, com imenso pesar, o falecimento do indígena conhecido como “Índio Tanaru” ou “Índio do buraco”, que vivia em isolamento voluntário e era monitorado e protegido pela Funai por meio da Frente de Proteção Etnoambiental Guaporé, no estado de Rondônia, há cerca de 26 anos. O indígena era o único sobrevivente da sua comunidade, de etnia desconhecida.

O corpo do indígena foi encontrado dentro da sua rede de dormir em sua palhoça localizada na Terra Indígena Tanaru, no último dia 23 de agosto, durante a ronda de monitoramento e vigilância territorial realizada pela equipe da FPE Guaporé/Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC). Não havia vestígios da presença de pessoas no local, tampouco foram avistadas marcações na mata durante o percurso.

Também não havia sinais de violência ou luta. Os pertences, utensílios e objetos utilizados costumeiramente pelo indígena permaneciam em seus devidos lugares. No interior da palhoça havia dois locais de fogo próximos da sua rede. Seguindo a numeração da lista de habitações do Índio Tanaru registradas pela Funai ao longo de 26 anos, essa palhoça é a de número 53, seguindo o mesmo padrão arquitetônico das demais, com uma única porta de entrada/saída e sempre com um buraco no interior da casa.

O exame de local de morte foi realizado pela perícia da Polícia Federal, com a presença de especialistas do Instituto Nacional de Criminalística (INC) de Brasília e apoio de peritos criminais de Vilhena (RO). As atividades foram acompanhadas por servidores da Funai. Nos trabalhos, foram utilizados equipamentos como drone e escâner 3D, além de serem coletados diversos vestígios e o corpo do indígena, que serão analisados pelo INC em Brasília.

A Funai lamenta profundamente a perda do indígena e informa ainda que, ao que tudo indica, a morte se deu por causas naturais, o que será confirmado por laudo de médico legista da Polícia Federal.

A AUTORA

Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff tem especialização em Gestão de Políticas Sociais e, atualmente, é diretora executiva da Agência e Revista Cenarium. Há 16 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Produziu matérias para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.


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Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff tem especialização em Gestão de Políticas Sociais e, atualmente, é diretora executiva da Agência e Revista Cenarium. Há 16 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Produziu matérias para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.

Paula Litaiff é Diretora de Redação em

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O Site da Paula Litaiff tem como principal finalidade a emissão de opinião sobre diversos temas sociais, políticos e econômicos, levando o leitor à reflexão sobre a importância de se tornar um agente transformador da sociedade.


Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio extremamente perigoso…

(in Um Sopro de Vida | CLARICE LISPECTOR)