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Indígena utiliza moda para resgatar origens: ‘Estou em processo de descolonização’

Para o indígena, João Paulino, esse resgate tem sido uma etapa de cura, inspiração e acolhimento. (Arquivo Pessoal/Reprodução)

Bruno Pacheco – Da Revista Cenarium

MANAUS – O designer de moda João Paulino, de 25 anos, mais conhecido como Siodohi, da etnia Piratapuya tem usado a moda como alternativa para o resgate cultural das tradições dos povos tradicionais da Amazônia. Em entrevista à REVISTA CENARIUM, nesta quarta-feira, 24, o indígena amazonense detalha o que tem sido fundamental para enfrentar barreiras que têm encontrado no processo de desconstrução.

Natural da Comunidade Indígena de Mariwá, localizado no Médio Waupés, no Alto Rio Negro, região do município de São Gabriel da Cachoeira (a 852 quilômetros de Manaus), atualmente mora em São Paulo. Ele é empreendedor e diretor criativo na agência Piratapuya, marca de roupas e vestuários que foi lançada em meio à pandemia do novo coronavírus.

Aos 25 anos, Siodohi é empreendedor e diretor criativo da própria marca (Arquivo Pessoal/Reprodução)

“Esse resgate tem sido um processo de cura, inspiração e acolhimento. Nunca pensei que tinha tantos pensamentos colonialistas em mim. Vale recordar que tem muitos parentes que também carregam fortemente estes pensamentos, vítimas do projeto de apagamento histórico por meio do integracionismo. Reconhecer isto faz com que eu tenha orgulho da minha identidade e lembrar que esta identidade é imutável independente da época, cenário e lugar onde eu estou”, contou João.

No sangue, João carrega consigo as linhagens dos povos Siriano com Dessano, por parte da família materna. Do lado paterno, Tariana com Piratapuya. Em uma publicação nas redes sociais, João contou sobre o quanto é intimidador falar da identidade indígena e que ainda tem influência da colonização, pois ele abraçou o movimento e a causa indígena há apenas um ano e alguns meses.

“Quando comecei a reconectar, percebi que parte da minha depressão era de não saber qual era minha real história, quais feridas foram abertas e que nunca foram, jamais, reconhecidas no processo de colonização e integração. Esses abusos vieram do século XIX e nenhum dos meus tiveram a oportunidade de não se moldar e não aceitar. Hoje, sinto o quão preciso de auxílio para fazer com que esse processo de descolonização em mim siga, por exemplo, por meio de diálogo, partilha e acolhimento”, escreveu no Twitter.

Desconstrução

Em 2019, ouvindo músicas indígenas contemporâneas, João afirmou que despertou um sentimento que o fez começar a pensar e planejar em como seu conhecimento e vivência poderia ser útil ao coletivo, aos indígenas. Antes mesmo que isso acontecesse, ele avaliou que viu em si um pensamento de colonizador inclinado ao pensamento eurocentrista, por isso, tem buscado ser aberto a diálogos, aprendendo e respeitando as diferentes formas, cores e vivências dos povos indígenas do Pindorama.

“A palavra correta seria me ‘desconstruir’, pois diariamente somos alvos de pensamentos colonialistas e eurocentristas, desde quando temos vergonha da nossa origem indígena. O epistemicídio nas academias e a censura da oralidade dos anciões indígenas foram grandes ferramentas do colonizador para que um dia estivéssemos com esta mentalidade. Este processo é de cura, ressignificação da forma que fomos ensinados a pensar e acima de tudo é de fortalecimento indígena desta geração e as próximas gerações”, explicou Siodohi.

Descolonização

Ao longo de 521 anos, período desde a descoberta do Brasil, os indígenas sofrem com estereótipos que invisibilizam suas tradições, crenças e cultura. De acordo com a antropóloga Fabiane Vinente, a descolonização surge como uma crítica a esse movimento. Segundo ela, é o processo de reflexão sobre o conjunto de ideias que surgiu, nas últimas décadas, a respeito da necessidade de revisar, tanto dentro da academia quanto na vida cotidiana, a mentalidade de que as sociedades evoluem em torno da industrialização.

“É um processo de reflexão sobre essas questões de como você incorpora coisas externas no cotidiano. Isso vai desde a música, a forma de pensar, os conceitos. Descolonizar é você criticar isso”, explicou. Segundo a Fabiana, a descolonização não leva o indígena ao ‘ponto zero’ de sua origem, ou seja, ao ponto em que não haja mais traços da colonização.

Como exemplo, a antropóloga salientou casos de pessoas que veem o indígena perdendo a sua cultura por estar morando na cidade usando um celular ou um carro. “Falam que ele não é mais indígena, porque ele já perdeu a cultura dele. Em primeiro lugar, a cultura não se perde e, segundo, se você tem acesso à tecnologia, por que você vai deixar de usar?”, refletiu.

Na história, conforme a antropóloga, o processo de descolonização está ligado ao “processo de extermínio”. “No contexto da pandemia, todo mundo está perdendo alguém ou correndo o risco de ficar doente. Nos povos indígenas, é um agravante, podendo levar ao extermínio”, ratificou.

O protagonismo na moda

A luta pela descolonização tem feito indígenas a começarem, também, a se questionarem sobre o processo de censura e a negação da identidade, além de se enxergarem como protagonistas, segundo o designer de moda. “Este processo não tem alcançado apenas os indígenas, mas, também, os ‘pardos’ que enfrentam um abismo imensurável de não saber da sua origem, um dos grandes resultados têm sido os indígenas em retomada”, reiterou.

Lançar a própria marca era um sonho de infância, segundo o indígena (Arquivo Pessoal/Reprodução)

Em abril de 2020, João começou a planejar o lançamento da marca Piratapuya. A loja era a realização de um sonho que ele tinha com o amigo de infância, Charles Maia Yanomami, que faleceu em fevereiro de 2020. “Um episódio que me deixou muito abalado. Perdi um amigo do ensino médio do povo Yanomami, o qual me incentivava muito neste sonho de ter uma marca. Isto fez com que eu abrisse mão de uma carreira já consolidada para atuar na moda e dar visibilidade aos indígenas do Alto Rio Negro nesta indústria”, recordou.

Em novembro do ano passado, o indígena lançou a primeira coleção: o Dabucurí, que faz um recorte da cerimônia milenar e patrimônio imaterial do Alto Rio Negro, juntando referências de frutas, alimentos, peixes e fibras consumidas na região. Sendo ele, a aceitação para seus produtos tem sido boa. Na Piratapuya, ele atua como designer de moda, apesar de ser formado em administração e MBA em Gerenciamento de Projetos. Atualmente, ele cursa Técnico de Modelagem de Vestuário pela Escola Técnica do Estado de São Paulo.

Lançamento da marca foi em novembro do ano passado (Arquivo Pessoal/Reprodução)

“A minha marca é Piratapuya, justamente por eu ser deste povo. Ela é fruto do sonho que tinha desde os meus 11 anos. Meu tio foi Alfaiate e minha tia Costureira, ambos indígenas do povo Tariano, e eu sempre observei o trabalho deles e foi uma das minhas grandes inspirações para mudar de área e fundar a marca”, lembrou o designer Sioduhi.

A coleção é composta por peças sem gênero que seguem a essência dos povos Piratapuya. Sobre os produtos, Sioduhi contou que busca transmitir o futurismo indígena por meio do recorte de sua experiência como indígena do Alto Rio Negro. “As minhas criações são todas inerentes ao processo de descolonização, este é o motivo do slogan da Piratapuya: ‘Compre uma peça, vista uma história’”, reforçou.

“Hoje cuido de todo processo de criação das peças, desde o painel de inspiração, modelagem e protótipos. Como sou empreendedor iniciante, faço praticamente um pouco de tudo. E as criações podem ser encontradas apenas na piratapuya.com e os pedidos podem ser fechados pela loja online, mas isso nada impede de chamar no DM (Mensagens Diretas) do Instagram e no WhatsApp da marca”, concluiu.



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A AUTORA

Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff tem especialização em Gestão de Políticas Sociais e, atualmente, é diretora executiva da Agência e Revista Cenarium. Há 16 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Produziu matérias para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.

Paula Litaiff é Diretora de Redação em

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O Site da Paula Litaiff tem como principal finalidade a emissão de opinião sobre diversos temas sociais, políticos e econômicos, levando o leitor à reflexão sobre a importância de se tornar um agente transformador da sociedade.


Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio extremamente perigoso…

(in Um Sopro de Vida | CLARICE LISPECTOR)