Paula Litaiff

Gestor de Colégio Militar, no AM, tenta influenciar voto de alunos: ‘Eu quero que o meu País vire uma Venezuela?’

Major de Escola da Polícia Militar do Amazonas é gravado tentando "doutrinar" alunos (Ricardo Oliveira/RevistaCenarium)
Paula Litaiff – Da Revista Cenarium

MANAUS – O major da Polícia Militar do Amazonas (PM/AM) Pedro Henrique, gestor do Colégio Militar Coronel Pedro Camara (CMPM VIII), na zona Oeste de Manaus, manifestou-se em um áudio, na terça-feira, 4, tentando influenciar os alunos do Ensino Médio para votar nas eleições presidenciais. O major é eleitor assumido do presidente Jair Bolsonaro (PL), candidato à reeleição no segundo turno com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Durante o intervalo das aulas, Pedro Henrique levou dezenas de alunos para a quadra poliesportiva da escola sem avisá-los, previamente, sobre o assunto da conversa. Com os alunos reunidos, o major usou termos relacionados à pátria e à religião. A REVISTA CENARIUM teve acesso, com exclusividade, ao áudio de trechos do diálogo do militar com os estudantes e, também, a prints de conversas do grupo de WhatsApp da escola mostrando a reação dos professores.

(Reprodução)

Na gravação, o major Pedro Henrique diz aos alunos em voz alta: “Então, preste bem atenção. O que eu quero para o meu País? Eu quero que o meu País seja uma Venezuela?”, pergunta. E os alunos responde em alto som: “Não!”

Os professores Colégio Militar CMPM VIII mostraram indignação no grupo de professores na conversa por aplicativo: “Então quer dizer que os alunos foram levados para a quadra para serem incentivados pelo gestor a votar certo? Por Deus e pela família? É isso mesmo, gestão?”, questionou um professor, sem obter resposta do major no grupo.

(Reprodução)

Medo de represália

Em conversa com um profissional do Colégio Militar de Manaus, que não será identificado para proteção pessoal, ele conta que muitos professores e servidores da escola já acompanhavam a tentativa do major e de outros militares em “doutrinar” os alunos a votarem no presidente Jair Bolsonaro. Eles não relataram o caso à Secretaria de Educação por medo de represália.

O funcionário contou, à REVISTA CENARIUM, trechos do diálogo do major Pedro Henrique que não aparecem no áudio. “Ele falou que as mulheres precisam trabalhar mais porque não têm a força para determinadas atividades de trabalho. Falou sobre drogas e Deus”, relatou.

“Só tinham alunos do Ensino Médio. Não participaram alunos do nono ano. Ele falou de família, de Deus, de banheiro e que ele gostaria de um governo que fosse bom para eles, que tivesse Deus. Foi um discurso que a gente sabe que é bolsonarista”, disse o profissional. Ele conta, também, que o gestor falou que as mulheres têm que trabalhar.

Ainda nas conversas do grupo de funcionários da escola, um servidor pede providências: “Gostaria de saber as providências que serão tomadas sobre isso”. Outro integrante do grupo diz que vai denunciar: “Com respeito ao processo democrático, farei o que é certo: o registro nas instâncias devidas”, disse.

Redes sociais

Depois das ameaças dos professores Coronel Pedro Camara contra a tentativa de doutrinamento do major Pedro Henrique, o militar desativou todas as suas redes sociais.

Brasil x Venezuela

A narrativa distorcida de o Brasil “virar” Venezuela ganhou força nas eleições presidenciais de 2018, quando Bolsonaro venceu sobre o então candidato do PT, Fernando Haddad. Nas eleições de 2022, o assunto voltou à tona.

Em referência à falta de abastecimento que a Venezuela enfrenta, bolsonaristas falaram do risco que o Brasil estaria correndo em um governo “comunista”. O PT é atualmente considerado um partido de centro-esquerda e não poderia ser considerado socialista ou comunista.

O atual presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, é do Partido Socialista Unido da Venezuela (em espanhol, Partido Socialista Unido de Venezuela), mais conhecido como PSUV,  fundado em 2007, segundo histórico da legenda.

Ato grave

Para o doutor em Sociologia formado pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Marcelo Seráfico, toda e qualquer tentativa de fazer proselitismo político, em época de eleição, nas escolas, é um ato grave. Proselitismo é o intento ou empenho de converter pessoas, ou determinados grupos, a uma determinada ideia ou religião, ou conseguir adeptos via instrução oral. 

“Mistura determinados papéis de professores, diretores e da instituição com aquilo que é a pedagogia e a educação. Outra coisa seria promover o debate político sobre as várias orientações que circulam na sociedade. Isso seria, inclusive, muito salutar e é o oposto do proselitismo político”, afirmou Seráfico.

Sem partido?

Marcelo Seráfico registra, ainda, que a denúncia vem de uma escola que defendeu o movimento Escola Sem Partido, que surge de uma preocupação com o grau de contaminação político-ideológica das escolas brasileiras:

“Cabe registrar como é, se não curioso, irônico e, talvez, cínico, vir de uma instituição como essa, a partir da qual muitas propostas vinculadas à ideia de escola sem partido foram divulgadas na sociedade durante muito tempo. O que isso atesta é que, na verdade, ninguém estava preocupado“, observou.

Para o cientista, não havia intenção real dos defensores da escola sem partido. “Nenhuma dessas pessoas estava preocupada com uma educação laica, crítica, aberta e democrática, mas sim como uma escola devotada ao partido delas ou o que é pior ainda, devotada ao candidato delas. Isso é cinismo, e as pessoas responsáveis por ela devem ser denunciadas”, concluiu o sociólogo.

Procurada, a Secretaria de Educação do Amazonas informou que o Colégio Militar CMPM VIII é de responsabilidade da Polícia Militar. Até o fechamento da matéria, a PM não se manifestou. O major da Polícia Militar Pedro Henrique foi procurado e não atendeu às ligações.

A AUTORA

Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff é diretora executiva da Revista Cenarium e Agência Amazônia, além de compor a bancada do programa de Rádio/TV “Boa Noite, Amazônia!”. Há 17 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Escreveu para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo com pautas sobre Amazônia. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.


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Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff é diretora executiva da Revista Cenarium e Agência Amazônia, além de compor a bancada do programa de Rádio/TV “Boa Noite, Amazônia!”. Há 17 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Escreveu para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo com pautas sobre Amazônia. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.

Paula Litaiff é Diretora de Redação em

O SITE

O Site da Paula Litaiff tem como principal finalidade a emissão de opinião sobre diversos temas sociais, políticos e econômicos, levando o leitor à reflexão sobre a importância de se tornar um agente transformador da sociedade.


Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio extremamente perigoso…

(in Um Sopro de Vida | CLARICE LISPECTOR)