Paula Litaiff

Dia dos Povos Indígenas: populações originárias são responsáveis por retardar a destruição da Floresta Amazônica

Bruno Pacheco – Da Revista Cenarium

MANAUS – No País onde o desmatamento é cada vez mais uma pauta rotineira, o Brasil tem nos povos originários a esperança para salvar a floresta da destruição. Isso porque foi confirmado por um estudo do MapBiomas, publicado nesta terça-feira, 19, dia que é celebrado o Dia dos Povos Indígenas, que as Terras Indígenas estão entre as áreas mais protegidas nos últimos 30 anos.

O levantamento aponta que, no Brasil, a perda geral de vegetação nativa nos últimos 30 anos foi de 69 milhões de hectares, mas apenas 1,6% (1,1 milhão de ha) do desmatamento recai sobre Terras Indígenas. Em contrapartida, nas áreas privadas, a perda de vegetação nativa chegou a 47,2 milhões de hectares, o que representou 68,4% de toda a perda no País entre 1990 e 2020.

Fonte: MapBiomas

No Brasil, as Terras Indígenas ocupam 13,9% do território e contêm 109,7 milhões de hectares de vegetação nativa, que correspondem a 19,5% da vegetação nativa em 2020. Segundo o estudo, nos últimos 30 anos, as TI no País perderam apenas 1% de sua área de vegetação nativa, enquanto nas áreas privadas a perda foi de 20,6%.

Terras Indígenas são barreiras

Para Julia Shimbo, coordenadora científica do MapBiomas e pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), os dados do estudo reforçam a tese de que as Terras Indígenas são como barreiras ou escudos ao avanço do desmamento. À REVISTA CENARIUM, a especialista afirmou que são esses territórios que estão protegendo a natureza em um cenário de aumento da destruição da floresta.

“São esses territórios que estão mantendo e protegendo a Floresta Amazônica em um cenário de aumento do desmatamento nos últimos anos e que, inclusive, estão sendo ameaçados por invasões de garimpo, exploração madeireira e desmatamento ilegal”, explicou.

Aumento

De acordo com o MapBiomas, houve um aumento no desmatamento em Terras Indígenas na Amazônia nos últimos anos. Os dados foram detectados pelo sistema de alerta do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Deter, que observou uma aceleração multiplicada por 1,7 na média dos três últimos anos quando comparado com a média de 2016 a 2018.

“Esse aumento no desmatamento na Amazônia se deve pela falta de fiscalização e investimento de políticas públicas para combater e prevenir o desmatamento ilegal, o que tem favorecido também outras atividades ilegais, como a grilagem, o garimpo, a exploração madeireira ilegal e que estão destruindo a Floresta Amazônia”, salientou a pesquisadora Julia Shimbo.

Piora no Governo Bolsonaro

O estudo do MapBiomas também compara os alertas de desmatamento do Deter em territórios indígenas entre 2016 e março de 2022, onde os números mostram saltos sucessivos, com ênfase nos anos do Governo Bolsonaro. O aumento ocorre tanto no desmatamento em geral quanto do desmatamento por mineração.

Garimpo

O levantamento do MapBiomas também revela dados sobre o garimpo. Segundo o estudo, que mapeou áreas de mineração de 2010 a 2020, a área ocupada pelo garimpo em Terras Indígenas cresceu 495%.

As maiores áreas de garimpo em Terras Indígenas estão em território Kayapó (7602 ha) e Munduruku (1592 ha), no Pará, e Yanomami (414 ha), no Amazonas e Roraima. Conforme o estudo, 93,7% do garimpo do Brasil em 2020 estava concentrado na Amazônia.

Sagrado para indígenas

A líder indígena e presidente da Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (Arman), Clarice Gama, do povo Tukano, explica à REVISTA CENARIUM que as populações originárias têm uma forte relação com a floresta e que, para eles, a natureza significa algo “sagrado” que deve ser respeitado. Para ela, os dados do MapBiomas mostram, claramente, que os povos indígenas são os que cuidam, verdadeiramente, da natureza.

“A natureza significa, para nós [povos indígenas], um sagrado e nós fazemos reverência, com todo respeito, à natureza. Para nós, a natureza sempre está interligada com a vida e é por isso que nós respeitamos a vida. Sobre as áreas privadas perderem 20,6% do território em 30 anos, para nós, significa que esse lado visa o lucro e não a vida, não respeita a natureza”, comentou a líder indígena.

Sagrado para indígenas

A líder indígena e presidente da Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (Arman), Clarice Gama, do povo Tukano, explica à REVISTA CENARIUM que as populações originárias têm uma forte relação com a floresta e que, para eles, a natureza significa algo “sagrado” que deve ser respeitado. Para ela, os dados do MapBiomas mostram, claramente, que os povos indígenas são os que cuidam, verdadeiramente, da natureza.

“A natureza significa, para nós [povos indígenas], um sagrado e nós fazemos reverência, com todo respeito, à natureza. Para nós, a natureza sempre está interligada com a vida e é por isso que nós respeitamos a vida. Sobre as áreas privadas perderem 20,6% do território em 30 anos, para nós, significa que esse lado visa o lucro e não a vida, não respeita a natureza”, comentou a líder indígena.

Clarice Tukano afirma que a natureza é ”sagrada” e precisa ser respeitada (Arquivo Pessoal/Reprodução)

Para Clarice Tukano, o avanço do desmatamento em áreas privadas compromete as regiões onde residem os povos indígenas, que acabam sofrendo com mudanças climáticas ou eventos extremos ocasionados pela destruição da floresta. Além do impacto às populações originárias, lembra Clarice, há também os animais que dependem do meio ambiente para sobreviver.

A presidente da Arman reforça ainda que a floresta representa a mãe e a identidade dos indígenas e que nela existem histórias mitológicas, cosmológicas e filosóficas que contemplam todas as vidas dessas populações. Por conta disso, salienta Clarice Tukano, o desmatamento impacta negativamente essas histórias e os sagrados dos povos tradicionais.

“A cosmovisão ocidental na esteira da revolução industrial ‘coisifica’ a natureza. E os povos indígenas consideram a natureza em pé de igualdade, tão digna quanto os seres humanos, numa relação harmoniosa. De parentesco, ancestralidade e vínculo com os outros patamares da existência. O branco mercantilizou a natureza, inferiorizando-a à mera mercadoria e como meio para acumular riqueza”, concluiu Clarice Tukano.

A AUTORA

Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff é diretora executiva da Revista Cenarium e Agência Amazônia, além de compor a bancada do programa de Rádio/TV “Boa Noite, Amazônia!”. Há 17 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Escreveu para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo com pautas sobre Amazônia. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.


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Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff é diretora executiva da Revista Cenarium e Agência Amazônia, além de compor a bancada do programa de Rádio/TV “Boa Noite, Amazônia!”. Há 17 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Escreveu para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo com pautas sobre Amazônia. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.

Paula Litaiff é Diretora de Redação em

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O Site da Paula Litaiff tem como principal finalidade a emissão de opinião sobre diversos temas sociais, políticos e econômicos, levando o leitor à reflexão sobre a importância de se tornar um agente transformador da sociedade.


Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio extremamente perigoso…

(in Um Sopro de Vida | CLARICE LISPECTOR)