#Factuais

Desnutrição crônica: oito em cada 10 crianças Yanomami sofrem com deficiência nutricional

Registro mostra criança Yanomami em quadro de grave desnutrição. (Divulgação)

Marcela Leiros – Da Revista Cenarium
MANAUS – A desnutrição crônica é a realidade dolorosa que as crianças Yanomami enfrentam na maior Terra Indígena (TI) do País e é apontada, por especialistas, como um dos resultados da “política anti-indigenista” do governo federal. Em 2019, oito em casa 10 crianças menores de 5 anos sofriam com a condição. Atualmente, com a pandemia da Covid-19 e o avanço do garimpo ilegal, a situação chegou a níveis alarmantes, como mostrou reportagem veiculada nesse domingo, 14, pelo Fantástico, do Rede Globo.

A TI Yanomami tem 9 milhões de hectares e abrange os Estados de Roraima e Amazonas. São 30 mil indígenas que habitam a extensa área dentro da Floresta Amazônica e as imagens da desnutrição infantil são chocantes. A estatura, o peso abaixo do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e a barriga dilatada são características dos pequenos Yanomami que acabam sendo acometidos por doenças infecciosas e parasitas.

Ao noticiário semanal, a pediatra e nutróloga da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Maria Paula de Albuquerque, apontou as possíveis causas dessas características físicas. “Revela uma possível infestação de parasita, ou uma possível síndrome de má-absorção, que é quando o intestino não tem como absorver os ingredientes, então ele distende”, explicou a médica, destacando ainda as consequências da desnutrição na saúde das crianças. “Quanto mais desnutrida a criança é, maior as chances dela ter a infecção por qualquer causa, pode ser respiratória, intestinal….”, destaca.

Criança Yanomami com a barriga dilatada. (Rede Amazônica)

Imagem da morte
Em maio deste ano, uma imagem rodou o mundo e se tornou um retrato da realidade da crise sanitária que atinge o povo Yanomami. Na aldeia Maimasi, uma criança deitada em uma rede escura estava tão magra que era possível ver as suas costelas. A menina tinha oito anos e pesava apenas 12,5 quilos — o peso mínimo normal para a idade seria de 20 quilos — acometida por malária, pneumonia, verminose e desnutrição.

Registro mostra criança Yanomami em quadro de grave desnutrição. (Divulgação)

A falta, ou escassez, de atendimento médico, aliada à deficiência de fiscalização ambiental, empurra os yanomamis para um cenário desesperador. Estima-se que 20 mil garimpeiros ilegais atuem no território. A atividade de mineração contamina os rios com mercúrio e tem causado deformidades e doenças em mulheres e crianças, segundo apontou o líder indígena do povo Yanomami, Dário Kopenawa à CENARIUM no dia 6 de outubro.

“As crianças estão saindo com malformações. Mulheres e crianças já estão com sintomas de coceira e também apresentam dor de barriga, diarreia e infecção urinária, porque a gente tá tomando água suja. Não é só a água, todo o território Yanomami está poluído”, advertiu o vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami.

As consequências do garimpo ilegal na Terra Indígena (TI) Yanomami. (Reprodução/ Rede Amazônica)

“Essa situação de abandono é anterior à gestão Bolsonaro. No entanto, sob Bolsonaro a alarmante situação das crianças Yanomami é igual ou pior”, afirma epidemiologista da Fiocruz Amazônia, Jesem Orellana, à CENARIUM, um dos autores do estudo que apontou a desnutrição crônica das crianças Yanomami.

Assistência
No Brasil, a assistência à saúde dos Yanomami está sob responsabilidade do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (DSEI-Y), vinculado à Secretaria Especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde. O território é dividido entre as etnias Yanomami e Ye’kuana, distribuídos em 258 aldeias, a maioria localizada em áreas remotas e de acesso, exclusivamente, aéreo ou fluvial.

O isolamento e dificuldades impostas pela localização dos indígenas dificulta o atendimento médico, mas não impede que o governo federal estenda, ao território, políticas de saúde consideradas ideológicas. Documento obtido pela CPI da Covid, que investigou as ações e omissões do governo federal na pandemia, mostrou que entre 30 de junho e 5 de em julho de 2020, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e o Ministério da Defesa levaram 100.500 comprimidos de cloroquina 150 mg e 16.158 comprimidos de azitromicina 500 mg e 600 mg para 75 mil indígenas das comunidades Suru-cucu, Auaris, Uiramu-ta, Flexal e Ticoça, no estado de Roraima.

Os medicamentos sem eficácia comprovada para tratamento da doença estavam entre as quase quatro toneladas de suprimentos médicos e Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) distribuídos também aos 1.762 profissionais de saúde dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) Yanomami e Leste de Roraima. A operação foi chamada de ‘Missão Yanomami: Raposa Serra do Sol’.



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A AUTORA

Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff tem especialização em Gestão de Políticas Sociais e, atualmente, é diretora executiva da Agência e Revista Cenarium. Há 16 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Produziu matérias para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.

Paula Litaiff é Diretora de Redação em

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O Site da Paula Litaiff tem como principal finalidade a emissão de opinião sobre diversos temas sociais, políticos e econômicos, levando o leitor à reflexão sobre a importância de se tornar um agente transformador da sociedade.


Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio extremamente perigoso…

(in Um Sopro de Vida | CLARICE LISPECTOR)