#Factuais

Atmosfera sincera e sem poses: retratos da vida nas comunidades indígenas da Amazônia

A morenice das cunhãs e a alegria de viver brincando debaixo da sombra de um jambeiro (Ricardo Oliveira/Cenarium)
Ricardo Oliveira – Da Cenarium

MANAUS – As comunidades indígenas Nova Esperança e Terra Preta, que integram a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Puranga Conquista, na região do arquipélago de Anavilhanas, participaram de uma série de ações promovidas pela Coordenação dos Povos Indígenas de Manaus e Entorno (Copime), em parceria com o Observatório de Direito Socioambiental e de Direitos Humanos da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

O objetivo é o fortalecimento institucional do movimento indígena como organização social, a partir de uma agenda de formações relacionadas ao associativismo, com vistas à valorização da cultura local. Localizada no rio Cueiras, à margem esquerda do rio Negro, a RDS Puranga Conquista foi estabelecida, por meio da Lei Estadual 4016, de 24 de março de 2014.

Os Barés são bilíngues e falam o português e o inhangaú (Ricardo Oliveira/Cenarium)

O Observatório de Direito Socioambiental e Direitos Humanos na Amazônia tem prestado assessoria jurídica à Copime, apoiando, principalmente, as agendas de educação e saúde indígena. “Nós, do observatório, colaboramos nesse processo de formação com um espaço de interação para que os participantes possam tirar dúvidas relacionadas às demandas enfrentadas na comunidade”.

Legado

Segundo o professor Diego Oseagawa, colaborador do curso “Licenciatura Indígena: Políticas Educacionais e Desenvolvimento Sustentável” e doutorando em Biotecnologia e graduação em Direito, a comunidade Terra Preta tem 50 famílias e, no seu entorno, açaizeiros, “banquete para as dezenas de tucanos que todos os dias de manhã e no final da tarde se alimentam e fazem uma algazarra no céu”.

O olhar enigmático do pequeno Albert Antônio de 9 anos (Ricardo Oliveira/Cenarium)

Os nativos do Terra Preta são bilíngues, ou seja, falam o português e o nheengatu. “Eu ensino para crianças de três a sete anos aqui na escolinha. É importante passarmos esse conhecimento para os jovens. É nossa cultura. É nosso legado”, comenta o professor Jonas Baré, de 59 anos.

A principal fonte de renda do Terra Preta e do Nova Esperança é o artesanato, confeccionado pelos comunitários. Colheres de pau, zarabatanas, canoas e colares são os mais procurados pelos visitantes. “Os turistas estrangeiros, quando aqui visitam levam quase tudo”, conta Arnaldo Baré, 31 anos.

União

O cacique Baré Clodoaldo Aleixo, 45 anos, ressalta que a comunidade é um exemplo de união. “Aqui, ajudamos uns aos outros. Temos peixe, criação de aves e plantação de mandioca.  O que falta em nossa comunidade é um posto de saúde. As mulheres precisam fazer o preventivo da saúde”, acrescenta.

A maioria dos partos feitos na comunidade foi realizada por Eunice Baré, de 68 anos. “Já fiz mais de 20 partos, mas não tenho mais idade para fazer”. Atualmente, a gravidez é acompanhada por médicos em Manaus.

Os jovens barés Elen Silva e Danilo Teodoro, moradores do Terra Preta (Ricardo Oliveira/Cenarium)

A criação da Associação Comunitária Indígena Baré de Nova Esperança (Acibane) é outro antigo anseio na comunidade, que decidiu incluir na associação um conselho de anciãos, com a função de orientar a Diretoria Executiva.

O cacique eleito para a gestão da Acibane, Reinaldo de Souza Santos, destacou que a comunidade aprovou o estatuto social e terá muito trabalho pela frente, uma vez que a liderança é importante para as futuras reinvindicações da comunidade. 

De acordo com a coordenadora da Copime, Marcivana Saterê-Mawé, “a criação de uma associação é de extrema importância para a organização das comunidades”. O próximo passo, segundo ela, é buscar melhorias também com outros parceiros para a comunidade. “A parceria com o observatório foi importante para esclarecer sobre direitos constitucionais e para o estudo do estatuto social na sua construção”, concluiu.

Os professores de inhangatu Jonas e Arnaldo da comunidade Terra Preta (Ricardo Oliveira/Cenarium)


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A AUTORA

Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff tem especialização em Gestão de Políticas Sociais e, atualmente, é diretora executiva da Agência e Revista Cenarium. Há 16 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Produziu matérias para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.

Paula Litaiff é Diretora de Redação em

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O Site da Paula Litaiff tem como principal finalidade a emissão de opinião sobre diversos temas sociais, políticos e econômicos, levando o leitor à reflexão sobre a importância de se tornar um agente transformador da sociedade.


Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio extremamente perigoso…

(in Um Sopro de Vida | CLARICE LISPECTOR)