Paula Litaiff

Associação Hutukara pede retirada urgente de garimpeiros da região de Waikás, em Roraima

(Reprodução/Divulgação)

Priscilla Peixoto – Da Revista Cenarium

MANAUS – Por meio de nota publicada à imprensa na quarta-feira, 27, a Hutukara Associação Yanomami (HAY) exigiu a retirada dos garimpeiros da região de Waikás, em Roraima. Após relatos de que uma adolescente de 12 anos foi estuprada e morta por homens dos garimpos, na última segunda-feira, 25, a associação ressaltou que está acompanhando o caso e salientou que, se confirmado, o episódio de violência sexual contra crianças e adolescentes não é o único ocorrido na região.

Infelizmente, episódios de violência sexual contra crianças, adolescentes e mulheres Yanomami praticadas por garimpeiros invasores já foram registrados em outras regiões sendo publicados no relatório Yanomami Sob Ataque, lançado no último dia 11. Além do assédio sexual, o relatório publicou casos de violência armada e ameaças de garimpeiros contra a vida dos Yanomami e Ye’kwana.

Assim, mais uma vez, a HAY não vai se calar diante de mais um ataque contra a vida de nossos povos.
Nosso relatório também traz informações de que a região de Waikás é a região mais impactada pelo garimpo ilegal na TIY. Quase metade do total da área destruída está concentrada em Waikás, no Rio Uraricoera. A devastação na região, em 2021, foi 296,18 hectares, um aumento de 25% em relação a 2021. (…) Insistimos que o Estado brasileiro cumpra o seu dever constitucional e promova, urgentemente, a retirada dos invasores
“, consta parte da nota divulgada.

O documento destaca ainda que a comunidade Aracaçá, situada na região do Palimu, foi alvo de constantes ataques de garimpeiros. “Em maio do ano passado, ocorreram seguidos ataques de garimpeiros armados e uma criança morreu afogada tentando fugir para se proteger dos invasores. Mesmo com toda a violência, a Base de Proteção Etnoambiental (Bape) da Funai, que deveria proteger o acesso ao Rio Uraicoera ainda não foi reativada e o garimpo continua atuando livremente“, informa o texto.

Nota divulgada na quarta-feira, 26 (Reprodução/Hutukara)

STF e MPF

Nesta quinta-feira, 28, a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia pediu investigação e esclarecimento sobre os fatores que rondam a morte da menina indígena. O pedido foi realizado durante a abertura de sessão do STF. Carmén Lúcia afirmou que as mulheres brasileiras vivem um “descalabro de desumanidades”.

Não é possível calar ou se omitir diante do descalabro de desumanidades criminosamente impostas às mulheres brasileiras, dentre as quais, mais ainda, as indígenas, que estão sendo mortas pela ferocidade desumana e incontida de alguns”, declarou a ministra.

Ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia (Reprodução/TSF)

Já o Ministério Público Federal, representado na sessão pela vice-procuradora-geral, Lindôra Araújo, informou que o caso está sendo investigado e citou a desigualdade entre homens e mulheres no próprio local de trabalho.

“(…) e aqui a gente vê que ainda tem um número muito inferior de mulheres, e eu posso dizer que atuando, inclusive, eu sou a única mulher entre catorze homens. É uma situação até simbólica e, nesse caso da indígena, foi ainda mais assustador, ainda mais se tratando de uma criança”, enfatizou.

Após extensas diligências e levantamentos de informações com indígenas da comunidade, não foram encontrados indícios da prática dos crimes de homicídio e estupro ou de óbito por afogamento, conforme narrados na denúncia em epígrafe. As equipes, portanto, ainda estão em diligência em busca de maiores esclarecimentos.

Polícia Federal investiga

No início da noite desta quinta-feira, a Polícia Federal informou, por meio de nota publicada no site oficial da PF, que esteve no local, nos últimos dois dias, para averiguar os casos de “eventuais crimes” contra mulheres e crianças indígenas da localidade, conforme o relatado em ofício encaminhado pelo Conselho Distrital de Saúde Indígena.

Segundo a PF, por hora, nenhum indício foi encontrado. “Após extensas diligências e levantamentos de informações, com indígenas da comunidade, não foram encontrados indícios da prática dos crimes de homicídio e estupro ou de óbito por afogamento, conforme narrados na denúncia em epígrafe. As equipes, portanto, ainda estão em diligência em busca de maiores esclarecimentos.

As instituições reafirmam o comprometimento no cumprimento de suas atribuições e ressaltam que todas as denúncias recebidas são devidamente apuradas. Atualização (28/4, às 19h): finalizadas as diligências in loco, as equipes retornaram, ao final da tarde de hoje, à Boa Vista/RR” informou a publicação da PF.

Sobre o caso

A situação foi denunciada na segunda-feira, 25, pelo presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kuana (Condisi-YY), Júnior Hekurari Yanomami. De acordo com ele, a morte da menina indígena aconteceu quando um grupo de homens do garimpo invadiu a comunidade e levou a adolescente e outras duas mulheres.

A tentativa de sequestro resultou no sumiço da criança de 4 anos, filha de uma das adultas que, desapareceu na água, segundo Júnior Yanomami. A suspeita é que a criança e a mãe estariam tentando se defender dos garimpeiros, quando a filha da mulher se desequilibrou do bote em que estavam navegando.

Os indígenas, revoltados e transtornados com a situação, foram orientados a não reagirem, pois os garimpeiros podem estar fortemente armados.

A AUTORA

Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff é diretora executiva da Revista Cenarium e Agência Amazônia, além de compor a bancada do programa de Rádio/TV “Boa Noite, Amazônia!”. Há 17 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Escreveu para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo com pautas sobre Amazônia. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.


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Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff é diretora executiva da Revista Cenarium e Agência Amazônia, além de compor a bancada do programa de Rádio/TV “Boa Noite, Amazônia!”. Há 17 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Escreveu para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo com pautas sobre Amazônia. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.

Paula Litaiff é Diretora de Redação em

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O Site da Paula Litaiff tem como principal finalidade a emissão de opinião sobre diversos temas sociais, políticos e econômicos, levando o leitor à reflexão sobre a importância de se tornar um agente transformador da sociedade.


Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio extremamente perigoso…

(in Um Sopro de Vida | CLARICE LISPECTOR)