Com R$ 15 milhões em recursos públicos, palcos do Sou Manaus 2026 registram baixa presença

MANAUS (AM) — Palcos do Sou Manaus Passo a Paço 2026 registraram baixa presença de público em diferentes momentos da programação. Apesar da estrutura de grande porte montada pela Prefeitura de Manaus para o festival, imagens registradas durante o evento enviadas para a Revista Cenarium mostram áreas amplas praticamente vazias, com pouca concentração de espectadores diante dos palcos principais. O executivo municipal anunciou R$ 15 milhões em recursos públicos para a realização da edição deste ano.
O evento começou na sexta-feira, 4 de setembro, e segue até o dia 13 no Centro Histórico da capital. Nos registros noturnos, a quantidade de pessoas próxima aos gradis de proteção é pequena em relação ao espaço disponível para o público, deixando grandes áreas do piso asfaltado desocupadas durante apresentações. A mesma dispersão aparece em imagens panorâmicas feitas durante o dia no complexo à beira-rio, onde poucas pessoas circulam entre palcos, tendas e estruturas de apoio.

A edição de 2026 foi apresentada pela administração municipal como uma versão ampliada do festival, com dez dias de programação, mais de 150 músicos e aproximadamente 3 mil trabalhadores da cultura. A Prefeitura também anunciou atividades de teatro, dança, exposições e outras manifestações culturais em diferentes equipamentos do Centro Histórico e estima público superior a 500 mil pessoas ao longo de toda a programação.
O valor anunciado para este ano representa uma redução de R$ 10 milhões em relação aos R$ 25 milhões inicialmente previstos na Lei Orçamentária Anual (LOA) para o festival. Segundo a Prefeitura, a diminuição foi possível graças à captação de patrocínios privados, que também seriam responsáveis pelo pagamento dos cachês das atrações nacionais, enquanto os recursos municipais seriam utilizados na estrutura do evento.
A administração municipal afirma que os R$ 10 milhões que deixaram de ser empregados no festival serão destinados à assistência de famílias atingidas pela estiagem. A Prefeitura também sustenta que os cachês das atrações nacionais não serão pagos com recursos municipais, mas por patrocinadores, informação que deverá ser confrontada com os contratos e demais documentos de execução financeira do evento.

Gastos de 2025 estão sob apuração do TCE-AM
A edição de 2026 acontece enquanto os gastos da edição de 2025 continuam sob análise dos órgãos de controle. Em maio de 2026, o Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM) julgou parcialmente procedente uma representação relacionada ao Sou Manaus 2025 e determinou medidas para ampliar a transparência das despesas, além da instauração de uma Tomada de Contas Especial para verificar a regularidade, a legitimidade e a economicidade dos gastos e a eventual existência de dano ao erário.
Segundo os dados utilizados pelo TCE-AM, as despesas relacionadas ao festival passaram de aproximadamente R$ 2 milhões em 2022 para R$ 25,135 milhões em 2025, crescimento de 1.156%. O Tribunal ressaltou que a ampliação do tamanho do evento poderia justificar parte do aumento, mas determinou que a Prefeitura apresentasse justificativas técnicas e financeiras, demonstrasse a composição dos custos, comprovasse a compatibilidade dos preços com o mercado e evidenciasse a vantagem econômica das despesas.
A questão apontada pelo Tribunal não se limitou ao aumento dos valores. O TCE-AM identificou falhas na transparência ativa da execução financeira do evento, com informações sobre contratos, notas de empenho, ordens de pagamento e valores destinados a artistas e fornecedores que não estariam disponíveis de forma suficientemente clara e acessível nos portais oficiais.
O Ministério Público de Contas do Amazonas (MPC-AM) também atuou na apuração e apontou que a ausência de detalhamento dificultava o controle social e a avaliação da economicidade dos gastos. Entre as informações cuja disponibilização foi determinada estão contratos e aditivos, notas de empenho, ordens de pagamento, notas fiscais, comprovantes de liquidação e pagamento e a individualização dos valores destinados a artistas, fornecedores e intermediários.
Em janeiro de 2026, antes da decisão do TCE-AM, o MPC-AM já havia requisitado ao prefeito David Almeida informações sobre as despesas do Sou Manaus 2025 e cópias dos processos de contratação dos artistas e das empresas envolvidas na realização do festival. A Tomada de Contas Especial determinada posteriormente pelo Tribunal ainda deverá verificar a regularidade e a economicidade das despesas, de modo que não há, até o momento, conclusão de que tenha ocorrido dano aos cofres públicos.
O histórico também inclui questionamentos anteriores sobre a transparência do evento. A comparação entre as edições precisa considerar que orçamento previsto na LOA, valores empenhados, despesas liquidadas, pagamentos efetivamente realizados, patrocínios privados e custo total do festival são categorias diferentes, razão pela qual os R$ 15 milhões anunciados para 2026 não correspondem necessariamente ao custo total do evento para o poder público.