Paula Litaiff

17 anos sem Irmã Dorothy: ambientalistas questionam violência contra quem defende a Amazônia

Irmã Dorothy Stang foi assassinada há 17 anos, no Pará. Foto: Divulgação

Malu Dacio — Da Revista Cenarium

MANAUS — Há 17 anos o município paraense de Anapu, 730 km distante de Belém, foi cenário de uma das maiores perdas para o movimento de proteção da Amazônia e dos movimentos de proteção da floresta. No dia 12 de fevereiro de 2005, aos 73 anos de idade, a vida da missionária americana Irmã Dorothy Stang foi covardemente ceifada.

A missionária foi morta com sete tiros em uma estrada de terra, na cidade em que residia. Um dos grandes focos de Dorothy era na redução dos conflitos fundiários, motivo levantado como principal causa de seu assassinato.

Em 1956, fez seus votos perpétuos de pobreza, castidade e obediência. Dorothy veio para o Brasil em 1966, no Maranhão, mas foi na década de 1970 que firmou seu trabalho e atuação na Amazônia, na Região do Xingu. 

O trabalho da missionária chegou longe, fazendo-a ser reconhecida tanto nacional quanto internacionalmente. Era membro da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

A história e missão de Dorothy reverbera e inspira gerações até os dias de hoje. A REVISTA CENARIUM ouviu ambientalistas que questionam a violência contra os defensores da Amazônia.

O geógrafo e ambientalista Carlos Durigan definiu que Irmã Dorothy dedicou sua vida para fazer o bem. “Seu histórico de vida na Amazônia demonstra isso. Uma pessoa que se dedicou às causas sociais e ambientais da Amazônia.

Durigan lembra que Dorothy foi brutalmente assassinada por defender interesses comuns e mútuos importantes para toda a humanidade. “Muito triste falar do que aconteceu com ela e que acontece com outras pessoas que dedicam sua vida a ações ao interesse coletivo, para praticar e promover o bem no mundo”, defendeu o geógrafo.

“Infelizmente, foi uma perda muito forte e ainda perdemos pessoas nessas frentes de ação pelo bem da humanidade e do planeta. É muito triste. Hoje, é uma lembrança muito triste e que ainda acontece na região”, lembrou Carlos.

Ações criminosas
A morte de Dorothy não é um caso distante e muito menos isolado. Em janeiro deste ano, Zé do Lago, a esposa Márcia e a filha J. (menor de idade), três ambientalistas, foram assassinados a tiros em São Félix do Xingu, também no Estado do Pará.

“Não dá para entender que pessoas que defendem assuntos de interesse coletivo e promovem o bem ainda sofrerem com ações criminosas. Como ainda vivemos num mundo que é possível isto existir?”, questionou Durigan.

“Não há planeta Terra sem Amazônia”
O ambientalista Ricardo Nimuna explica que o trabalho pastoral nas áreas rurais e florestais sempre consistiram em transformar a atividade extrativista, conservando a natureza e em geração de renda (empregos, trabalhos) devidamente justo.

Ele lembra ainda que atualmente existe muita hostilidade relacionada à preservação ambiental, reforma agrária e desenvolvimento sustentável gerando conflitos provenientes do capitalismo. 

Para o ambientalista Ricardo Nimuna, a maior dificuldade é a conscientização das pessoas. (Foto: Arquivo Pessoal)

Ricardo salienta que o próprio governo federal incentiva de forma subliminar tais conflitos por meio de ações e procedimentos em que o interesse econômico fica acima de tudo.

“E foi o que a Irmã Dorothy sempre pregou, com o diferencial de participar ativamente em tais projetos. Ela por várias vezes, por meio da Pastoral, convidou os donos das terras para uma solução pacífica, colocando em risco o sistema capitalista existente à época, provocando risco de vida às pessoas que lutavam com a Irmã Dorothy em busca de soluções aos conflitos”, lembrou o ambientalista.

“A maior dificuldade é a conscientização das pessoas. Precisamos mudar a cultura de preservação sustentável. Muitos nunca plantaram sequer um caroço de tucumã, pupunha, no entanto, sempre consumiram. Imagina o planeta Terra sem a Amazônia”, finalizou o ambientalista.

A AUTORA

Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff é diretora executiva da Revista Cenarium e Agência Amazônia, além de compor a bancada do programa de Rádio/TV “Boa Noite, Amazônia!”. Há 17 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Escreveu para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo com pautas sobre Amazônia. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.


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Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff é diretora executiva da Revista Cenarium e Agência Amazônia, além de compor a bancada do programa de Rádio/TV “Boa Noite, Amazônia!”. Há 17 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Escreveu para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo com pautas sobre Amazônia. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.

Paula Litaiff é Diretora de Redação em

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O Site da Paula Litaiff tem como principal finalidade a emissão de opinião sobre diversos temas sociais, políticos e econômicos, levando o leitor à reflexão sobre a importância de se tornar um agente transformador da sociedade.


Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio extremamente perigoso…

(in Um Sopro de Vida | CLARICE LISPECTOR)