#Factuais

Quem, realmente, mandou matar Dom e Bruno?

Dom Phillips e Bruno Pereira (Arte: Thiago Alencar)

Por Márcia Guimarães

Quem matou o jornalista britânico Dom Phillips e o indigenista brasileiro Bruno Araújo Pereira? A pergunta permeou o noticiário mundial nas primeiras semanas de junho deste ano. Os dois, cada um na sua profissão, dedicaram suas vidas à defesa da Amazônia e aos povos da floresta. Foram brutalmente assassinados por estarem cumprindo suas missões. E a barbárie que teve a mata como testemunha ecoa mundo afora trazendo, mais uma vez, à tona desgoverno, desmando, omissão, isolamento e a luta de um povo que grita, mas não é ouvido. Quem matou Dom e Bruno?

Quando desapareceram, Dom e Bruno estavam na Terra Indígena Vale do Javari, a segunda maior do País e onde se concentra o maior número de indígenas isolados. Estavam fazendo entrevistas com indígenas e a população local sobre atividades que se converteram em ameaças ao meio ambiente, à segurança na região e à segurança nacional. Nem “aventura”, nem “excursão”, como disse o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, mas cumprindo uma missão social que não estava sendo efetivamente cumprida por quem tinha obrigação de cumpri-la. Quem matou Dom e Bruno?

Em entrevista ao programa Fantástico, da Rede Globo, a esposa de Bruno, Beatriz Matos, que é antropóloga e o conheceu trabalhando no Vale do Javari, revelou que se sentiu ofendida pelas declarações do presidente e afirmou que, se o local onde precisam estar para realizar seu trabalho se tornou violento e perigoso, a responsabilidade é daqueles que permitiram a degradação. Em nota, a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) informou que já havia denunciado a existência de “uma quadrilha de pescadores e caçadores profissionais, vinculados a narcotraficantes”, que ingressaram no território para extrair os recursos naturais e vendê-los, mas que “as providências não foram tomadas com a devida rapidez”. Para a Univaja, houve crime político. Quem matou Dom e Bruno? Sim, mata quem aperta o gatilho. Mas aqueles que cavam o ouro ou se embrenham na mata e nos rios pela caça e pesca ilegal são apenas o braço miserável cooptado por uma indústria de ilegalidades de longo alcance. É preciso ir a fundo e, de fato, punir. Quem matou Dom e Bruno?



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A AUTORA

Graduada em Jornalismo, Paula Litaiff tem especialização em Gestão de Políticas Sociais e, atualmente, é diretora executiva da Agência e Revista Cenarium. Há 16 anos, atua no Jornalismo de Dados, em Reportagens Investigativas e debate de temas sociais. Produziu matérias para veículos de comunicação nacional, como Jornal Estado de S. Paulo e Jornal O Globo. Seu trabalho jornalístico contribuiu na produção do documentário Killer Ratings da Netflix.

Paula Litaiff é Diretora de Redação em

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O Site da Paula Litaiff tem como principal finalidade a emissão de opinião sobre diversos temas sociais, políticos e econômicos, levando o leitor à reflexão sobre a importância de se tornar um agente transformador da sociedade.


Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio extremamente perigoso…

(in Um Sopro de Vida | CLARICE LISPECTOR)